Como Trinidad perdeu seus santos: a expedição de Adolfo de Bourgoing em 1887

Em 1887, o viajante uruguaio Adolfo de Bourgoing visitou Trinidad (Misiones, Paraguai) para coletar objetos religiosos das reduções jesuíticas para o Museu de La Plata. O relato, extraído de seu livro e publicado pelo El Nacional, descreve suas negociações com o chefe local Buenaventura Flecha para adquirir as relíquias.

Em 1887, o viajante uruguaio Adolfo de Bourgoing percorreu povoados paraguaios e argentinos da região de Misiones com a missão de coletar objetos e imagens religiosas das antigas reduções jesuíticas, destinados ao recém-criado Museu de La Plata. O relato, publicado originalmente em seu livro "Viajes en el Paraguay y Misiones" e resgatado pelo jornal El Nacional em uma nova edição apoiada pela Tiempo de Historia e Fondec, narra suas negociações com Buenaventura Flecha, então chefe de Trinidad e Jesús.

Segundo o texto, Bourgoing partiu de Posadas após 36 horas de estadia, seguindo para Trinidad com cavalos transportados em uma chata até Villa Encarnación. O objetivo da expedição, conforme explicado em informe do diretor do museu, Francisco P. Moreno, era ampliar as coleções argentinas, que até então se concentravam nas províncias andinas e regiões austrais, deixando lacunas no litoral paranaense e no território de Misiones. Moreno destacou que a região era rica em vestígios da Companhia de Jesus, com ruínas de povoados quase perdidos, estátuas de madeira e pedra, altares, pinturas e livros que mereciam ser salvos da destruição.

Ao chegar a Trinidad, Bourgoing descreveu uma vegetação exuberante cobrindo as ruínas do povoado fundado pelos jesuítas em 1712, com duas imponentes igrejas de pedra ainda de pé. Diante de um edifício antigo com arcadas e corredores de pedra talhada, encontrou Buenaventura Flecha, descrito como um homem grave, de cabelos e bigodes grisalhos, baixo e robusto, que lia um livro velho à sombra. Flecha, autoridade policial e juiz local, recebeu os visitantes em dois antigos sillões que, segundo ele, provinham do templo de Jesús e foram transportados para sua casa para evitar que outros os destruíssem.

Bourgoing, ciente da fama de codícia de Flecha por informes confiáveis, adotou uma postura de indiferença calculada para não desbaratar as negociações. O relato termina com a descrição dos sillões, ricamente esculpidos e dourados, mas com a tapeçaria de seda substituída por couro grosseiro, indicando a decadência dos objetos outrora valiosos.