O Tribunal de Sentença que julga o ex-ministro Arnaldo Giuzzio por cohecho passivo agravado recebeu o conteúdo extraído do celular do narcotraficante brasileiro Lindomar Reges Furtado, condenado a 37 anos de prisão por tráfico internacional de drogas. A informação foi enviada pelas autoridades brasileiras e agora passará por perícia e tradução antes de ser incorporada ao processo.
O tribunal é presidido pela juíza Adriana Planás e integrado pelos juízes Yolanda Morel e Mathías Garcete. A expectativa é que, após a tradução, os diálogos sejam apresentados durante o julgamento em andamento, caso revelem vínculos entre Giuzzio e Reges Furtado.
Paralelamente, o juízo oral e público contra Giuzzio prossegue nesta quinta-feira. O ex-ministro é acusado de manter contato próximo com Marcus Vinicius Espíndola Marqués de Pauda, alvo da Operação Turf e detido no Brasil por lavagem de dinheiro, tráfico de drogas e tráfico de ativos. Segundo a investigação, entre julho de 2021 e fevereiro de 2022, Giuzzio, então ministro do Interior, comunicou-se regularmente com Vinicius por WhatsApp e encontrou-se pessoalmente com ele nas dependências da FOPE (Força de Operações Especiais) e nas empresas Black Eagle Grupo SA e Ombu SA, dedicadas a blindagem de veículos e segurança.
Os fiscais sustentam que Vinicius buscava tornar-se fornecedor do Estado, oferecendo coletes à prova de balas e veículos blindados. Os primeiros “presentes” aceitos por Giuzzio teriam sido a blindagem de um veículo policial como “cortesia” e o empréstimo gratuito de uma caminhonete blindada para uso pessoal durante férias em família no Brasil.
As conversas de WhatsApp mostram que, em outubro de 2021, Vinicius enviou a Giuzzio links e capturas de tela sobre a Operação Lava Jato e uma operação no domicílio de Antonio Joaquim Da Mota, ao que Giuzzio respondeu “Obrigado, Marcus”. No mesmo mês, Vinicius teria realizado a blindagem e reparo de uma caminhonete da Polícia. Em novembro, mencionou ter amostras para testes balísticos de coletes. Em dezembro, ofereceu a Giuzzio a troca de motor de um veículo da FOPE e outro veículo como “cortesia”. Em dezembro de 2022, Vinicius disse ter um dos blindados prontos; Giuzzio perguntou se o reparo seria caro e, ao ouvir que seria “cortesia”, respondeu “Excelente” e pediu fotos.
Os fiscais consideram que há suspeita razoável de que Vinicius não apenas prestou serviços de reparo e blindagem a veículos do Ministério do Interior e da Polícia, mas também negociou com Giuzzio o fornecimento de materiais para essas instituições.