Acordo UE-Mercosul abre mercado de 750 milhões de consumidores para o Paraguai, mas exige adaptação produtiva

O tratado comercial entre União Europeia e Mercosul promete acesso preferencial e redução de tarifas para exportações paraguaias, mas impõe desafios de competitividade e adequação a padrões sanitários e de qualidade.

O acordo entre a União Europeia e o Mercosul coloca o Paraguai diante de uma das maiores aberturas comerciais de sua história recente: um mercado potencial de cerca de 750 milhões de consumidores. A magnitude do bloco — um dos maiores espaços econômicos do mundo — redefine o horizonte exportador do país, ao permitir a entrada com tarifas reduzidas ou zero para uma ampla gama de produtos.

Um dos pontos centrais do acordo é a liberalização progressiva do comércio. A União Europeia eliminará tarifas sobre 93% de suas importações do Mercosul em até 10 anos, enquanto o bloco sul-americano terá até 15 anos para desgravações equivalentes em torno de 90%. Essa assimetria reconhece as diferenças de desenvolvimento entre as duas regiões e concede ao Paraguai uma margem maior de adaptação.

Para o país, o impacto potencial é significativo. Estima-se que cerca de 95% das exportações atuais e futuras poderão acessar o mercado europeu com tarifa zero ou preferencial, o que melhora substancialmente a competitividade de produtos-chave. A isso se somam cotas específicas negociadas para o Paraguai, como acesso exclusivo para produtos como açúcar orgânico, carne suína e biodiesel, abrindo nichos concretos dentro de um mercado altamente regulado.

O acordo também implica uma redução ampla de barreiras comerciais em ambos os sentidos. Em termos gerais, prevê-se a eliminação de mais de 90% das tarifas entre os blocos, o que facilitará o fluxo de bens, serviços e investimentos. Essa abertura não impactará apenas as exportações, mas também as importações, com maior disponibilidade de produtos europeus e potencial pressão competitiva sobre setores locais.

No entanto, o cenário não é linearmente positivo. A abertura comercial exigirá uma rápida adaptação do aparato produtivo paraguaio, especialmente em padrões sanitários, qualidade e rastreabilidade, requisitos-chave do mercado europeu. Setores menos competitivos podem enfrentar dificuldades diante da entrada de bens com maior valor agregado, em um contexto onde a integração global implica tanto oportunidades quanto riscos.

De uma perspectiva estratégica, o acordo posiciona o Paraguai dentro de cadeias de valor mais amplas e o aproxima de um dos mercados mais sofisticados do mundo. Mas também o expõe a uma maior concorrência e a regras mais exigentes. A experiência internacional mostra que os benefícios desses tratados dependem menos do acesso formal e mais da capacidade real de aproveitá-lo.

O desafio, em suma, será interno. A abertura comercial não garante por si só crescimento nem diversificação produtiva. Requer políticas complementares: infraestrutura, financiamento, inovação e apoio a setores exportadores. Sem esses elementos, o risco é que o acesso preferencial fique subutilizado.

Assim, o acordo UE-Mercosul abre uma janela histórica para o Paraguai, mas também instala uma pergunta de fundo: se o país está preparado para competir — e se sustentar — em um mercado de 750 milhões de consumidores. O potencial está dado; o resultado dependerá de como for gerenciado.