Comunidade paraguaia na Irlanda cresce e cria associação para apoiar migrantes

A comunidade paraguaia na Irlanda, que já ultrapassa 500 pessoas, criou em 2022 a Associação de Paraguayos Residentes na Irlanda (APRI) para apoiar migrantes, especialmente estudantes de inglês, promovendo encontros culturais e redes de contato.

Comunidade paraguaia na Irlanda cresce e cria associação para apoiar migrantes
Ilustração gerada por IA.

Cruzar o Atlântico com uma mala cheia de projetos tem se tornado uma realidade cada vez mais frequente para a juventude paraguaia. A cada ano, mais pessoas deixam o país para estudar, trabalhar ou começar uma nova etapa no exterior, enfrentando desafios culturais, emocionais e pessoais. Nesse processo, a distância, a adaptação e a reconstrução da identidade longe de casa viram uma experiência compartilhada entre quem vive fora do Paraguai.

De acordo com o relato de paraguaios residentes na Irlanda, as principais razões para emigrar se concentram na formação acadêmica e no crescimento pessoal. Porém, a saudade aparece rápido. Na maioria dos casos, a falta dos domingos em família e das rotinas cotidianas no Paraguai se torna o aspecto mais difícil da experiência migratória.

Soila María López de Tynan chegou à Irlanda em 1993. Naquele momento, a presença paraguaia no país era praticamente inexistente. Não havia redes sociais, associações nem canais de comunicação. "Éramos três paraguaias", recorda.

Nascida em Puerto Pinasco e criada no Bañado Tacumbú, em Assunção, foi sua primeira experiência fora do país. Chegou após se casar com seu marido irlandês e iniciar uma nova vida familiar. Um dos primeiros impactos foi o inverno e a neve, muito diferente da realidade do seu país, o que marcou profundamente sua adaptação.

Com os anos, a presença paraguaia começou a crescer até superar hoje os 500 compatriotas. Nesse processo se consolidou a Associação de Paraguayos Residentes na Irlanda (APRI), formalizada em 2022 como um espaço de encontro e acompanhamento.

Hoje, Soila preside a associação, que funciona como ponto de apoio para quem chega, especialmente estudantes de inglês. Através de encontros culturais e redes de contato, a APRI se tornou um espaço-chave para a comunidade paraguaia na Irlanda.

Para Julieta Benjamín, a migração não foi apenas uma mudança de país, mas também uma forma de se explorar. Licenciada em Comunicação Audiovisual, atriz e escritora, chegou à Irlanda impulsionada pela curiosidade e pela necessidade de crescimento pessoal.

Em seu percurso aparece uma busca constante por algo mais, tanto no plano profissional quanto interno, junto ao desejo de explorar novas versões de si mesma. Viver em outro país a levou a enfrentar uma nova realidade, mas também a se olhar de outro lugar. A distância transforma a maneira como se percebe a própria origem e abre uma sensibilidade distinta diante da memória e das raízes.

Essa mesma mirada atravessa seu trabalho artístico. Em seu poemário "La amnesia busca asilo en otra parte", a memória e o esquecimento aparecem como um jogo constante, como se cada lembrança fosse uma forma de reconstruir o vivido a partir da distância.

Para ela, começar do zero não é apenas uma decisão geográfica, mas uma experiência profundamente humana, a de se desarmar e se rearmar quantas vezes for necessário em um ambiente completamente novo.

No caso de Alejandro Rivas, engenheiro industrial, a experiência na Irlanda se enquadra em um processo mais amplo de formação. Sua decisão de sair do Paraguai respondeu à necessidade de se expor a um ambiente internacional que lhe permitisse ampliar suas oportunidades acadêmicas e profissionais. Em seu caminho, a Irlanda funcionou como uma etapa intermediária, uma ponte para novos objetivos no exterior.

Durante sua estadia, buscou não apenas melhorar o idioma, mas também compreender outras formas de trabalho, de organização e de pensamento. Desde sua perspectiva, cada vez mais jovens paraguaios estão optando por caminhos semelhantes, com a ideia de adquirir novas ferramentas e depois decidir como se reinserir ou se mover no mundo com mais preparação.

"Lá fora nos damos conta de que há tecnologias novos, processos de automação e avanços que ainda não estão tão desenvolvidos ou implementados no nosso país", afirma. Ele sustenta que na Europa se veem inovações em automação, digitalização e sustentabilidade que ainda estão em expansão no Paraguai. Nesse sentido, ressalta que também há muito por construir no país.

A história de Jessica Enciso reflete outra face da migração, a do esforço cotidiano e da capacidade de adaptação. Licenciada em Ciências do Esporte e acróbata, chegou à Irlanda decidida a estudar inglês e trabalhar ao mesmo tempo.

Antes de chegar à Europa, havia tido uma experiência prévia nos Estados Unidos, que lhe deu um primeiro contato com a vida fora do Paraguai. Ainda assim, a Irlanda representou uma mudança mais profunda e uma rotina completamente nova.

Os primeiros meses exigiram muito esforço. Resolver trâmites, buscar alojamento, começar as aulas e conseguir trabalho se somavam a um idioma que no princípio não dominava totalmente. Com o tempo, o inglês deixou de ser um obstáculo e se tornou uma ferramenta que lhe deu independência e segurança.

Hoje, Jessica se desenvolve com confiança, algo que representa uma das conquistas mais importantes dessa etapa. Para além do aprendizado técnico, destaca a segurança que ganhou em si mesma e a capacidade de continuar avançando em contextos novos.

Para Lucas Grisetti, a experiência migratória tem tanto luzes como sombras. Desde seu papel na APRI, participa na organização de eventos culturais e espaços de formação para a comunidade paraguaia na Irlanda. Ele vive há cinco anos no país europeu e descreve os primeiros tempos como os mais difíceis, especialmente pela barreira linguística e pelo distanciamento da família.

Fontes (1)

Atualizado: 28 de jun. de 2026, 09:48