Economistas debatem se BCP deve intervir diante da forte queda do dólar no Paraguai

Com o dólar atingindo o menor valor em mais de sete anos, economistas consultados pelo ABC Color analisam se o Banco Central do Paraguai deve intervir para conter a desvalorização, destacando impactos sobre exportadores e a cadeia produtiva.

No início de maio de 2026, o dólar americano atingiu seu menor valor em mais de sete anos no Paraguai, cotando a G. 6.000 no câmbio efetivo e G. 5.977 no interbancário, níveis não vistos desde dezembro de 2018, segundo dados oficiais do setor. A moeda acumula uma queda de 7% no ano e de 23% nos últimos doze meses, uma redução de quase G. 2.000 por dólar em relação ao mesmo mês do ano anterior, quando a divisa rondava os G. 8.000 nas casas de câmbio.

Diante desse cenário, o ABC Color ouviu dois economistas para avaliar se o Banco Central do Paraguai (BCP) deve intervir. Martha Coronel afirmou que o BCP dificilmente conseguirá reverter a tendência, mas pode realizar ações para conter a queda. Segundo ela, o banco tem o mandato oficial de controlar a inflação, mas o crescimento econômico também está entre suas funções, criando um dilema: controlar preços pode afetar o crescimento. Coronel destacou que o câmbio baixo favorece a manutenção de preços de importados relativamente baixos, mas esses produtos vêm de países com suas próprias inflações, o que acaba importando inflação embutida. Além disso, a importação de combustíveis, encarecidos pela guerra no Oriente Médio, agrava a situação. A economista alertou que a cadeia produtiva do agro, incluindo transporte, logística e controle de qualidade, é muito importante e está sendo afetada pela combinação de dólar baixo e diesel caro.

Já Arnold Benítez, também ouvido pelo ABC Color, afirmou que o BCP não pode atuar como um “seguro de rentabilidade” para nenhum setor. Seu papel é cuidar da estabilidade monetária, não fixar um dólar confortável para exportadores, importadores ou o fisco. No entanto, Benítez ponderou que isso não significa indiferença ao mercado cambial: se a queda responde a fundamentos como maior ingresso de divisas, boa safra agrícola, menor pressão inflacionária ou fraqueza internacional do dólar, o natural é deixar o mercado ajustar. Mas se houver movimentos bruscos, volatilidade excessiva ou falta de liquidez, o BCP pode intervir para ordenar o mercado, não para manipular o preço. Para as empresas, o economista recomendou o uso de instrumentos de hedge como contratos a termo, futuros de moedas, swaps e opções de cobertura natural, enfatizando que a gestão cambial não pode mais ser improvisada.

Ao final da semana, o dólar apresentou leve alta em relação ao fechamento anterior, movendo-se no mercado interbancário/atacadista próximo a G. 6.100–6.160, com referências no varejo em torno de G. 6.070 (compra) e G. 6.150 (venda).