O juiz Humberto René Otazú decretou a prisão preventiva de Cristian Porfirio Amarilla Cabaña, Aldo Osmar Pintos Martínez e Alicia Marlene Vázquez Samaniego, investigados por supostas filtragens de informações e obstrução de investigações ligadas ao falecido deputado Eulalio “Lalo” Gomes. Amarilla era diretor de Inteligência da Secretaria Nacional Antidrogas (Senad); Pintos, coronel e ex-comandante das Forças Especiais; e Vázquez atuava no Departamento de Investigação contra o Crime Organizado. Os três foram encaminhados à prisão militar de Viñas Cué.
A acusação é conduzida pelos fiscais antidrogas Ingrid Cubilla, José Martín Morínigo, Luis Said e Christian Ortiz. Eles imputam aos investigados, em diferentes combinações, associação criminosa, frustração da persecução e da execução penal agravada pela condição funcional, omissão de funcionário encarregado de prevenir crimes e, no caso de Pintos, tráfico de influência. As referências ao chamado clã Gomes como estrutura dedicada ao tráfico internacional de drogas e à lavagem de dinheiro constam da imputação do Ministério Público e ainda não representam condenação.
A investigação se baseia, entre outros elementos, na extração de mensagens e ligações do celular de Gomes. Um dos episódios é o Operativo Sanctus, realizado em 8 de dezembro de 2023, quando a Fiscalía sustenta que Pintos teria contribuído para frustrar a prisão do brasileiro Ronaldo Mendes Nunes, investigado por narcotráfico. O órgão também atribui a Pintos e Amarilla manobras posteriores para desvincular Gomes da logística da fuga.
Outro ponto envolve a Operação Pavo Real I, sobre bens e supostos laranjas ligados a Jarvis Chimenes Pavão. Segundo a imputação, Amarilla e Vázquez omitiram, em um relatório final de julho de 2024, a vinculação de Gomes com a Estancia Negla Poty, embora a informação aparecesse em documentos preliminares. Vázquez teria pedido que o nome do político não fosse mencionado, mas o relatório teria mantido uma mensagem que indicava sua relação com o imóvel.
Também é atribuído a Pintos um pedido para que Gomes usasse sua influência na obtenção de um veículo como depositário judicial. Em relato publicado pelo El Observador, a resposta atribuída ao ex-deputado foi: “cobrá con ese”. A mesma investigação menciona que Hugo Derlis Baptista Báez, ex-diretor-geral Antidrogas e primo de Gomes, teria oferecido a ele um fuzil Mauser calibre 7,62 mm de uso exclusivo das forças públicas. Baptista permanece imputado, assim como os demais envolvidos, mas não integra a decisão de prisão dos três agentes.
O caso também alcança Helga Lizany Concepción Solís Gómez, sobrinha de Gomes e prima de Alexandre Rodrigues Gomes. Ela foi assistente fiscal do Ministério Público entre 2019 e 2023 e esteve comissionada na Prefeitura de Cerro Corá. Representada pelo advogado Jorge Barrios, apresentou-se em Pedro Juan Caballero e se recusou a depor. A decisão de prisão preventiva existe, mas as fontes divergem sobre o local: uma informa cumprimento no Departamento contra o Crime Organizado da Polícia Nacional, enquanto outras indicam Viñas Cué.
Conforme a imputação, Solís Gómez teria atuado como elo entre o entorno familiar de Gomes e agentes públicos. Entre os fatos citados está a suposta alteração, em 2019, de atas policiais para beneficiar Kadu Cezar Machado, apontado como integrante do PCC, além de gestões para obter um laudo favorável. A acusação também afirma que ela tentou evitar que Gomes e Alexandre fossem identificados em uma investigação contra a ex-funcionária do BBVA Claudia [sobrenome omitido], por lesão de confiança e fraude bancária, e que filtrou informações do Operativo Sanctus para Gomes e seu filho.
Uma publicação do El Observador, baseada no relato atribuído a Solís Gómez sobre uma conversa com a sobrinha, afirma que Gomes disse ter falado longamente com Jalil Rachid em 10 de fevereiro de 2024, após notícias sobre a fuga de Mendes Nunes. Três dias depois, segundo o mesmo relato, Solís informou que Rachid havia se reunido com Baptista, Amarilla e Pintos e que o encontro teria tranquilizado os agentes, que contariam com o apoio do ministro. O conteúdo foi apresentado como elemento da imputação e não teve confirmação independente indicada nas fontes.
O senador opositor Rafael Filizzola defendeu que a responsabilidade de Rachid também seja investigada, tanto pelas supostas filtragens quanto pela manutenção de chefes sob suspeita em seus cargos. Em críticas reproduzidas pelo El Nacional, ele acusou a Fiscalía de atuação seletiva, mencionou disputas e acusações cruzadas entre a Senad, o Ministério do Interior e o Ministério Público e pediu que fossem examinados também os papéis de Marco Alcaraz, Liliana Alcaraz e Lorenzo Lezcano. Filizzola ainda questionou a falta de protocolos e transparência na compra de equipamentos de interceptação telefônica financiados pela Itaipu Binacional, inicialmente destinados à Senad e depois transferidos à Polícia Nacional.
As defesas pediram medidas alternativas, como prisão domiciliar, permanência em uma unidade da própria Senad e reconhecimento do comparecimento voluntário, do arraigo e de problemas de saúde. A defesa de Amarilla ofereceu imóveis como caução. Otazú considerou que a expectativa de pena, o risco de fuga e a possibilidade de interferência nas provas — especialmente pela posição hierárquica dos acusados — justificavam a prisão. O prazo para a Fiscalía apresentar seu requerimento conclusivo termina em 15 de março de 2027.
