O recente episódio de idas e vindas sobre a realização do desfile militar nos festejos patrióticos de 14 e 15 de maio, no Paraguai, expôs algo muito mais profundo do que uma simples falta de coordenação logística no gabinete de Santiago Peña. Segundo o jornal Ultima Hora, o que se viu foi um sintoma da fragilidade da identidade nacional e da precariedade do debate público, hoje sequestrado por narrativas que beiram o absurdo.
Quando o Ministério da Defesa e a Secretaria de Cultura sugeriram inicialmente suspender o desfile para dar lugar a um enfoque 'mais cidadão e cultural', a reação de certos setores foi imediata. Alguns legisladores 'dissidentes' classificaram a medida como 'atentado à nacionalidade' e 'alergia à pátria', enquanto um mediático jornalista, conhecido por sua retórica soberanista de 'nova direita', viu na possível ausência de botas marchando um plano orquestrado pelo Foro de Davos e pelo 'globalismo' para destruir o Estado-Nação paraguaio.
O governo, temendo ser tachado de 'antipatriota', recuou. O vice-presidente Pedro Alliana teve que 'emendar a planilha' rapidamente para acalmar as águas de uma opinião pública alimentada pela nostalgia de um passado de ordem e mando. No final, o desfile foi confirmado, mas a pergunta sobre o que significa ser paraguaio hoje ficou flutuando no ar viciado da política.
O jornal Ultima Hora argumenta que a narrativa do 'globalismo', inicialmente instalada por Donald Trump e seus seguidores, é potente e perigosa: mistura verdades, meias-verdades e fantasmas em proporções que dificultam a refutação sem parecer cúmplice do inimigo. No entanto, a publicação ressalta que, no caso paraguaio, a soberania não é erodida pelos tecnocratas de Davos, mas sim pelos próprios 'capangas' de dentro do país.
A acusação contra a ministra da Cultura, Adriana Ortiz, de tentar substituir o 'orgulho patriótico' por uma visão 'multicultural descafeinada' revela uma obsessão por uma memória histórica estática, que pretende que as Forças Armadas sejam o único pilar fundacional do Estado. O jornal cita o pensador Rafael Barrett, que em 1910 afirmou que o amor à pátria não se ensina com hinos, mas nasce do ambiente coletivo, e que a verdade não tem pátria.
Para Ultima Hora, o país sobra de desfiles e falta de marchas: o desfile é hierárquico, estático, obedece a uma ordem; a marcha é dinâmica, democrática e nasce da necessidade de transformação. A verdadeira perda de soberania, segundo o veículo, está na entrega de terras ao agronegócio, na destruição de comunidades camponesas e indígenas, e no envenenamento dos rios, tudo feito por políticas internas, não por foros internacionais.