O desejo de ser mãe permanece forte, mas o caminho até a gravidez tem se tornado mais longo para muitas mulheres no Paraguai. O fenômeno, batizado de “mamães em espera”, reflete uma mudança social que prioriza estudos, estabilidade financeira e crescimento profissional, adiando a maternidade para depois dos 35 anos — idade considerada pelo especialista em fertilidade Gustavo Manavella como a “bisagra reprodutiva”.
Em entrevista ao programa Residentas, da emissora GEN, Manavella explicou que a reserva ovárica, ou potencial reprodutivo da mulher, começa a cair de forma acelerada a partir dos 35 anos, com queda ainda mais acentuada após os 40. “O momento ideal para engravidar é entre os 20 e 35 anos. Depois, as chances diminuem”, afirmou.
O médico destacou que a desinformação é um dos maiores obstáculos. Muitas mulheres chegam tarde aos consultórios por nunca terem recebido orientação sobre fertilidade ou sobre doenças que podem comprometer a gestação. “A mulher deveria fazer exames de reserva ovárica antes mesmo dos 30 anos para saber como está seu potencial reprodutivo”, recomendou.
Entre as patologias mais comuns e silenciosas está a endometriose, que atinge entre 10% e 12% das mulheres e pode levar à infertilidade em até metade dos casos. “O sintoma principal é a dor menstrual incapacitante, que por anos foi normalizada”, lembrou Manavella. “Antes, a mãe levava a filha ao ginecologista e ouvia: ‘Quando você engravidar, vai passar’. Hoje sabemos que essa dor não é normal.”
O especialista também ressaltou que a infertilidade não é um problema exclusivamente feminino. “O fator masculino representa metade do problema”, disse, apontando que fatores ambientais, estresse, álcool, tabaco e calor contribuem para o aumento da infertilidade masculina em todo o mundo.
Manavella esclareceu que a infertilidade é definida como a ausência de gravidez após 12 meses de relações sexuais sem proteção, mas nem todos os casos exigem tratamentos complexos. “Às vezes, são problemas hormonais ou relações fora do período fértil. Com informação e acompanhamento, muitas gestações acontecem naturalmente.”
As técnicas de reprodução assistida, como a fecundação in vitro, melhoram as chances: a taxa natural de gravidez é de cerca de 20%, enquanto no primeiro ciclo de tratamento assistido pode chegar a 50%. No entanto, o médico alertou que a prática atual prioriza a transferência de um único embrião para reduzir riscos de gestação múltipla, considerada de alto risco.
O impacto psicológico do processo também é significativo. Todas as clínicas de fertilidade contam com equipes de psicologia para lidar com a culpa, a angústia e a frustração que o diagnóstico pode gerar. “O estresse não causa infertilidade, mas pode afetar o ciclo ovulatório”, explicou Manavella.
Em junho, estão previstas campanhas de preservação da fertilidade, com foco no congelamento de óvulos, prática que ganha espaço entre mulheres que desejam adiar a maternidade sem abrir mão da possibilidade futura. “A medicina acompanha a mulher e os casais nesse processo. A informação é a ferramenta mais importante”, concluiu o especialista.