O Paraguai reúne condições privilegiadas para aproveitar a demanda global por alimentos, recursos estratégicos e produtos florestais, mas ainda enfrenta obstáculos estruturais que limitam o desenvolvimento do seu meio rural. O diagnóstico foi feito por analistas e autoridades durante a apresentação do Reporte de Economía y Desarrollo (RED) do CAF — Banco de Desarrollo de América Latina y el Caribe, intitulado "Raíces del futuro: el nuevo mundo rural de América Latina y el Caribe".
O evento, realizado na semana passada, reuniu Guillermo Cabral, economista principal da Direção de Estudos Macroeconômicos do CAF; Javier Viveros, viceministro de Indústria do Ministério de Industria y Comercio (MIC); Cristina Goralewski, presidenta do Instituto Forestal Nacional (Infona); e Hanny Cueva-Beteta, coordenadora residente da ONU no Paraguai.
Cabral destacou que a América Latina, e o Paraguai em particular, vive hoje uma janela de oportunidade apoiada na abundância de recursos naturais, na posição como exportador de alimentos e na crescente procura por insumos ligados à transição energética. No entanto, reconheceu que o campo paraguayo ainda concentra desafios importantes, como a necessidade de diversificação produtiva, desenvolvimento de cadeias de valor, gestão ambiental e aumento de produtividade em alguns segmentos.
No plano social, o economista apontou que os territórios rurais seguem com altos índices de pobreza, informalidade, déficit de infraestrutura e dificuldades para que comunidades e produtores se beneficiem plenamente do potencial existente.
Javier Viveros enfatizou que o Paraguai tem enorme volume de matéria-prima a ser industrializada, mas que é preciso criar condições para conectar o produtor a mercados dispostos a pagar preços que garantam qualidade de vida. Como exemplo, citou o caso do Peru, que fatura US$ 7 bilhões por ano com exportação de frutas como arándanos, cítricos e palta.
"Tudo isso pode ser plantado no Paraguai. Uma hectare de arándanos gera US$ 50 mil de rendimento. Imaginem comparado com uma hectare de chía, que gera 7 milhões de guaraníes por ano. Uma família com 3 hectares pode mudar de vida", afirmou o viceministro.
Viveros reconheceu que o MIC tem uma dívida histórica com os produtores em matéria de acesso a financiamento e afirmou que o governo trabalha em um produto financeiro sob medida para a indústria nacional. Também mencionou o programa "Sí Calidad", que fortalece o Organismo Nacional de Acreditación (ONA) e o Instituto Nacional de Tecnología, Normalización y Metrología (INTN) para que o país possa emitir certificados de qualidade internacional e abrir portas para mercados mais competitivos.
"Estamos começando pelo setor agroalimentar, porque claramente é o setor que nos próximos anos vai liderar as exportações do Paraguai. Temos que apostar desde hoje na qualidade e na excelência", disse.
Cristina Goralewski, por sua vez, ressaltou a evolução do setor florestal paraguai, que hoje tem 70% da matéria-prima proveniente de plantações florestais, principalmente eucaliptos, contra apenas 30% de madeira nativa, destinada sobretudo à produção de carvão. Comparou o potencial do país com o do Uruguai, que possui 1,2 milhão de hectares plantados e exporta mais de US$ 3 bilhões ao ano, enquanto o Paraguai dispõe de capacidade para 8 milhões de hectares.
