Pesquisadores da Facultad de Ciencias Exactas y Naturales (FACEN) da Universidad Nacional de Assunção publicaram um guia que documenta o uso tradicional de plantas silvestres alimentícias por comunidades Mbya Guaraní do departamento de Itapúa. A publicação, intitulada "Guía de plantas silvestres alimenticias de los Mbya Guaraní de San Rafael", reúne saberes transmitidos de geração em geração sobre espécies vegetais utilizadas na alimentação e tem como objetivo preservar saberes ancestrais e valorizar o patrimônio biocultural paraguaio.
O material registra 38 espécies vegetais empregadas tradicionalmente como alimento, incluindo frutos, raízes, folhas, brotos e outras partes de plantas coletadas em diferentes ambientes naturais. Entre as espécies identificadas estão o pindó, o guembé, o pakurí, a guavira, o ñangapiry, o arasá e diversas variedades de inga, além de outras plantas menos conhecidas que fazem parte da dieta tradicional dos Mbya Guaraní.
Cada ficha contém informações botânicas, denominações em língua Mbya Guaraní, fotografias, descrição dos ambientes onde as espécies crescem e detalhes sobre suas formas de aproveitamento alimentício. A publicação se constitui como ferramenta de referência para pesquisadores, educadores e as próprias comunidades indígenas.
O estudo foi realizado em comunidades localizadas dentro da Reserva do Parque Nacional San Rafael e em seus arredores, um dos remanescentes mais importantes do Bosque Atlántico del Alto Paraná (BAAPA), considerado entre os ecossistemas mais ameaçados do mundo. A guia também alerta sobre as ameaças que a região enfrenta devido ao desmatamento, à expansão agrícola e a outras transformações da paisagem, fatores que impactam tanto a biodiversidade quanto a disponibilidade de espécies tradicionalmente utilizadas pelas comunidades indígenas.
Um dos aspectos destacados do projeto foi a participação ativa de lideranças comunitárias e detentores de conhecimento tradicional das comunidades Pindo'i, Pindoju e Arroyo Morotĩ, por meio de processos de consulta prévia e consentimento informado. Os autores ressaltaram que os conhecimentos compilados fazem parte do patrimônio intelectual coletivo do povo Mbya Guaraní e destacaram a necessidade de fortalecer o diálogo entre a ciência e os saberes tradicionais para contribuir com a conservação da biodiversidade, a segurança alimentar e a diversidade cultural do Paraguai.
A pesquisa foi desenvolvida por María Idalicia Vera Jiménez, Marcelo Dujak, Bonifacia Benítez, Pamela Marchi, Mariana Martínez e Sara Núñez Meza, no âmbito de um projeto financiado pelo CONACYT por meio do Programa PROCIENCIA, com apoio do Fondo para la Excelencia de la Educación y la Investigación (FEEI).
