Uso excessivo de telas pode causar 'demência digital' em crianças, alertam especialistas

O neurocientista australiano Mike Nagel, da Universidade Sunshine Coast, apresenta resultados alarmantes de exames cerebrais em crianças e adolescentes que usam telas de forma intensiva. Os achados incluem déficit de matéria branca e padrões similares ao Alzheimer precoce, fenômeno que ele chama de 'demência digital'. Especialistas paraguaios comentam os riscos e as recomendações para pais.

O neurocientista australiano Mike Nagel, professor da Universidade Sunshine Coast, vem divulgando resultados preocupantes de exames de ressonância magnética em crianças e adolescentes que fazem uso excessivo de telas de celulares, computadores e televisores. Os estudos indicam que crianças que passam de 2 a 3 horas por dia diante de telas já apresentam desenvolvimento anormal da matéria branca cerebral, responsável pela transmissão rápida de informações entre as regiões do cérebro.

Nagel, autor do livro 'Voltando-se Autista', compara os danos observados a sintomas do transtorno do espectro autista (TEA), cunhando o termo 'autismo virtual'. Em adolescentes que ficam entre 6 e 8 horas expostos a telas, foram encontrados 'alargamento de sulcos cerebrais e afinamento em áreas-chave', padrões semelhantes aos do Alzheimer precoce, que ele denomina 'demência digital'. O cientista também relata queda no QI médio histórico e aumento de casos de demência precoce entre 35 e 44 anos.

No Paraguai, o neurologista infantil José Medina afirma que os achados de Nagel já são uma realidade clínica. 'Existem estudos científicos que descrevem afinamento cortical. Observamos anedonia — incapacidade de sentir prazer com estímulos que não tenham a intensidade ou velocidade de uma tela —, déficit executivo grave e fragmentação da atenção', explica Medina, autor do livro 'Navegar no Autismo'. Ele ressalta que o desenvolvimento da tridimensionalidade, da linguagem e da autorregulação emocional exige interação humana e tátil com o mundo físico.

A neuropsicóloga Natalia Martínez Bruyn pondera que, na prática clínica, o termo 'demência digital' não é usado como diagnóstico formal. 'O que observamos não são danos neurológicos estruturais permanentes, mas alterações comportamentais e funcionais em desenvolvimento, de ordem biopsicossocial', afirma. Ela cita a teoria de Lev Vygotsky, segundo a qual o desenvolvimento psiconeurológico depende de experiências sociais dirigidas, que são substituídas pela estimulação digital prolongada e passiva.

A oftalmologista pediátrica Verónica Contreras alerta para o aumento de dopamina por hiperestimulação, gerando maior gratificação com telas do que com outras atividades. 'Crianças que tiveram os eletrônicos removidos apresentaram sintomas de abstinência, como mudanças de humor e birras, que duram cerca de 15 dias até voltarem ao normal', relata.

Martínez Bruyn lembra que a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda evitar totalmente a exposição a telas para menores de dois anos e, após essa idade, limitar o uso a uma hora diária, sempre com supervisão de adultos. Contreras acrescenta que a Associação Espanhola de Pediatria, desde o ano passado, recomenda que crianças menores de 6 anos não tenham contato com telas. 'Usamos as telas como babás eletrônicas, mas estamos criando um problema de longo prazo do qual elas não conseguirão sair sozinhas', conclui.