Em um jardim botânico universitário na Alemanha, um ginkgo solitário observa, em silêncio, as frustrações e as mudanças de gerações que buscam incansavelmente uma forma de se conectar e se fazer entender. Essa é a premissa de “Silent Friend”, longa-metragem da diretora húngara Ildikó Enyedi que estreia esta semana nos Estados Unidos e foi premiado no último Festival de Veneza.
Em entrevista, Enyedi explicou que o filme celebra a paixão por descobrir. “Em uma época em que se questiona a autonomia acadêmica, as descobertas científicas são postas em dúvida e, às vezes, atacadas de forma muito feroz, achei importante mostrar a beleza desse tipo de curiosidade, a beleza da pesquisa científica”, afirmou. “É um traço tão excepcional e bonito da humanidade que pensei que seria legal mostrá-lo em um filme e chamar a atenção para isso.”
A produção entrelaça três histórias que se passam no mesmo campus alemão, em décadas distintas. Em 1908, Grete (Luna Wedler) torna-se a primeira mulher admitida na universidade e precisa lidar com o cruel sexismo da academia da época. Em 1972, Hannes (Enzo Brumm) chega do campo e tenta, com dificuldade, se integrar em um campus marcado pela efervescência rebelde. Já em 2020, um neurocientista (Tony Leung) fica preso com um funcionário que fala outro idioma durante a pandemia de covid-19.
Cada um dos protagonistas vive um momento de solidão na universidade e, em suas respectivas épocas, é cativado pelo isolado ginkgo, árvore que se ergue no jardim botânico da instituição e a qual observam em busca de conexão. “O filme inteiro se passa no mesmo jardim, mas abrange mais de cem anos”, destacou Enyedi, que foi indicada ao Oscar de melhor filme estrangeiro por “On Body and Soul” (2017).
A diretora também ressaltou como a percepção humana em relação ao gênero mudou ao longo do século. O filme mostra a trajetória de uma estudante para quem ser admitida era algo excepcional, de uma jovem que tenta ser levada a sério em um campus mais aberto nos anos 1970 e de uma acadêmica que, em 2020, é referência em sua área. “O século XX foi o século da mulher, no qual a posição da mulher na sociedade mudou de forma muito ampla. Então foi uma ferramenta muito boa para mostrar a mudança por meio das mulheres”, disse Enyedi.
Além da ciência e do gênero, “Silent Friend” explora a necessidade de conexão, as barreiras do idioma e como os seres humanos enfrentam esses desafios. Quando os protagonistas não conseguem se comunicar verdadeiramente com seus pares por diferenças pessoais ou até linguísticas, buscam ouvir a natureza, que, por meio de efeitos sonoros e uma experiência sensorial, ganha voz no filme. “Não é por acaso que coloquei alguns obstáculos linguísticos entre alguns dos humanos”, comentou a diretora de 70 anos. “É o desejo de comunicação, a dificuldade da comunicação, a beleza de quando ela realmente acontece, e também sobre descobrir canais alternativos de comunicação quando a forma verbal básica não está funcionando.”
Essa necessidade, insiste Enyedi, marca a experiência humana, assim como “a paixão por descobrir o mundo, por mudar o olhar. E tudo o que você pode descobrir ao fazer isso”.