Escondidas junto ao corpo, em caixas de sabão em pó, em fundos falsos de veículos, dentro de pneus e até em potes de doce de leite — as estratégias dos contrabandistas de medicamentos para emagrecimento vindos do Paraguai se multiplicam. Na maioria dos casos, as apreensões envolvem ampolas de tirzepatida, substância usada no tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2.
Dados da Receita Federal em Foz do Iguaçu, Brasil, indicam que as apreensões de medicamentos adelgaçantes aumentaram sete vezes em relação ao mesmo período do ano passado. O delegado da Polícia Federal Emerson Rodrigues classificou o crescimento como “absurdo” e afirmou que o fenômeno exige uma nova estratégia de ação conjunta entre Paraguai e Brasil.
“É um crime grave contra a saúde pública. Estamos trabalhando, mas é muito difícil porque há um fluxo muito grande de medicamentos. Acredito que precisaremos fazer um ajuste, talvez a nível de cooperação com o Paraguai, para tentar diminuir esse tipo de crime que cresceu muito”, declarou Rodrigues.
O contrabando envolve tanto grandes grupos criminosos organizados quanto pessoas físicas que, movidas pelo lucro, passam a revender os medicamentos no Brasil. “Existem grupos organizados que levam grande quantidade de medicamentos porque buscam lucro. Antes era o cigarro, depois o cigarro eletrônico e hoje são os medicamentos e anabolizantes. Também há um fluxo de muitas pessoas que levam pequenas quantidades para vender e depois aumentam o volume. É uma frente ampla porque envolve tanto grupos organizados quanto grupos pulverizados”, detalhou o delegado.
A principal rota do contrabando é a Ponte da Amizade, que liga Ciudad del Este a Foz do Iguaçu. Diferentemente de produtos de grande volume, como maconha e cigarros eletrônicos, que utilizam o Lago Itaipu e o rio Paraná, os medicamentos ocupam pouco espaço e são facilmente ocultados. “O medicamento usa pouco espaço, por isso temos tantas apreensões na ponte. Mas também temos apreensões em todo o estado do Paraná e fora dele; inclusive no aeroporto temos muitos casos. Como é um volume pequeno, é fácil para as pessoas escondê-lo para transportar”, explicou Rodrigues.
A diferença de preços entre os dois países é o principal motor do contrabando. Enquanto no Paraguai uma ampola de tirzepatida custa entre 500.000 e 700.000 guaranis, no Brasil o mesmo produto é vendido por 2.500.000 a 3.000.000 de guaranis. No Paraguai, há uma grande variedade de marcas e apresentações do medicamento; no Brasil, apenas uma farmacêutica está autorizada a fabricá-lo, o que limita a oferta e mantém os preços elevados.