Uma longa fila de brasileiros se forma diariamente sob o sol intenso na fronteira de Ciudad del Este, no Alto Paraná. Acampam por horas, às vezes dias, sobre a terra vermelha, à espera de documentos que lhes abram as portas para o que muitos chamam de “sonho de direita” ou a “Suíça da América do Sul”.
O movimento migratório, impulsionado por redes sociais e influenciadores digitais, reflete uma insatisfação com a carga tributária e o cenário político no Brasil. O modelo paraguaio “10-10-10” — alíquotas únicas de 10% para o Imposto ao Valor Agregado (IVA), o Imposto de Renda Empresarial (IRE) e o Imposto de Renda Pessoal (IRP) — é citado como principal atrativo econômico.
“Os empresários estão saindo do Brasil para vir ao Paraguai. Aqui, a carga de impostos é muito menor e as leis trabalhistas são muito mais acessíveis”, afirmou Dilberto Wegrnen, empresário de 63 anos, natural de Cascavel, Paraná. Ele criticou o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e declarou: “O Paraguai em breve será o maior país da América Latina”.
Delly Fragola, cabeleireira, deixou o Brasil porque “já não oferece oportunidades” para seu negócio. “Disseram que aqui eu teria acesso mais fácil à mão de obra. No Brasil, ninguém quer trabalhar”, disse.
A aposentada Zena Cheraze, de 68 anos, viajou “às cegas” do Rio de Janeiro após ver “muita propaganda no YouTube”. “Cada um diz uma coisa diferente. Vim eu mesma comprovar”, explicou. Ela acredita que no Paraguai conseguirá um seguro de saúde mais barato. “Nós, os de direita, nos sentimos o povo mais oprimido. Não temos liberdade”, acrescentou, referindo-se ao governo Lula.
O arquiteto aposentado Marcelo Mendes, 70 anos, também foi influenciado por vídeos na internet. “Vimos relatos de quem já tinha vindo, explicando como obter os documentos”, contou. Ele desistiu de se mudar para Portugal e optou pelo Paraguai.
Em 2025, o Paraguai concedeu cerca de 40.600 autorizações de residência a estrangeiros. Mais da metade — 23.500 — foi para brasileiros, muito à frente dos argentinos, com 4.300. Nos três primeiros meses de 2026, já foram emitidos 9.200 novos documentos para cidadãos do Brasil.
Cornelio Melgarejo, diretor de imigração do Alto Paraná, estima que, até dois anos atrás, 80% dos pedidos eram de estudantes de medicina em busca de universidades mais baratas. Agora, nota a chegada de muitos empresários interessados nas condições trabalhistas paraguaias.
Para lidar com a demanda saturada, a Direção Nacional de Migrações mantém o programa MigraMóvil, que leva serviços de documentação a localidades com acesso limitado. Uma nova edição está prevista entre 18 e 22 de maio.
O presidente Santiago Peña, questionado por um jornalista brasileiro durante as comemorações da independência, em 14 de maio, respondeu: “O que digo é amizade, muito carinho, irmandade e laços históricos. Trabalhei muito na relação com o Brasil. Estamos vendo uma população muito grande de imigrantes brasileiros no Paraguai”.