Um áudio filtrado expôs como o senador colorado cartista Javier Zacarías Irún negociou a distribuição de cargos na Itaipú Binacional, entidade dirigida por seu irmão, Justo “Lucho” Zacarías Irún. A gravação, cuja veracidade o parlamentar não negou, registra uma conversa de 26 de março deste ano com o então operador político e atual pré-candidato a vereador em Ciudad del Este, Osvaldo Sánchez Jara.
Na discussão, Sánchez Jara cobrava um contrato na hidrelétrica para seu irmão, Avilio Gumercindo Acuña Jara, como pagamento por apoios eleitorais. “O tema do meu irmão (...) é uma conversa que eu tive com Lucho. Jamais cumpriu”, reclamou o operador, mencionando o apoio dado à campanha da deputada cartista Rocío Abed, esposa de Justo Zacarías. Diante da cobrança, o senador respondeu: “Em um segundo vou resolver as coisas para você” e se ofereceu para ser “secretário” do dirigente a fim de conseguir o posto.
A promessa teve efeito imediato. Um dia depois da reunião, em 27 de março, a Itaipú firmou uma Autorização de Serviço com o irmão de Sánchez Jara, com valor estimado em 15 milhões de guaranis mensais. O documento leva a assinatura do diretor paraguaio Justo Zacarías Irún e de Avilio Acuña Jara. No entanto, o contrato não foi efetivado por completo, o que levou o operador a abandonar o movimento do clã e apoiar outro candidato a prefeito em Ciudad del Este.
Procurado pela imprensa, Javier Zacarías Irún deu versões contraditórias. Inicialmente, afirmou que o áudio estava fora de contexto e que não houve contratação. Depois, admitiu a assinatura do documento, mas alegou que a ordem de serviço nunca foi emitida. “Não me arrependo. É uma maneira coloquial de falar com alguém que é dirigente do partido”, declarou. O senador sustentou que não cometeu irregularidades e que a divulgação do áudio o beneficia por mostrar que não cede a extorsões.
A bancada cartista saiu em defesa do parlamentar. O líder do bloco, senador Natalicio Chase, classificou o episódio como uma “conversa habitual” na política e descartou tráfico de influências ou possibilidade de perda de mandato. “Não tem a mínima possibilidade de se configurar dentro da perda de investidura”, afirmou.
Senadores da oposição, por outro lado, consideraram o caso um uso indevido de influências. Celeste Amarilla, do Partido Liberal Radical Autêntico, apontou que a conduta se enquadra no artigo 201 da Constituição Nacional e defendeu a apresentação de um pedido de perda de investidura, ainda que de forma testemunhal. Juan Afara, também senador, afirmou que “diante das evidências, é preciso se render”, e criticou a falta de transparência nos concursos da binacional.