Pressão popular derruba quatro senadores no Paraguai em menos de um ano

A saída de Norma Aquino, Javier "Chaqueñito" Vera, Hernán Rivas e Erico Galeano do Senado paraguaio, em meio a escândalos de corrupção, títulos falsos e condenações criminais, revela o desgaste do blindagem política do oficialismo cartista e o poder da pressão cidadã e midiática.

Em menos de um ano, quatro senadores paraguaios ligados ao cartismo deixaram suas bancas, vítimas de uma pressão popular, midiática e opositora que conseguiu furar o tradicional blindagem político da Câmara Alta. Norma Aquino, Javier “Chaqueñito” Vera, Hernán Rivas e Erico Galeano foram expulsos ou renunciaram após escândalos que vão de supostas coimas e tráfico de influências a condenação por lavagem de dinheiro.

Norma Aquino, conhecida como “Yamy Nal”, foi a primeira a cair. Em setembro de 2025, o Senado aprovou por unanimidade sua expulsão por perda de investidura, depois da divulgação de áudios em que se mencionavam supostas coimas, negociações políticas e uma doação de US$ 8 milhões de Taiwan. A senadora, que havia sido eleita pelo Partido Cruzada Nacional e depois se alinhou ao cartismo, tornou-se o primeiro sinal de que o escudo parlamentar poderia rachar.

O mesmo escândalo respingou em Javier “Chaqueñito” Vera, que inicialmente recebeu apenas uma suspensão de 60 dias sem salário. Mas a crise se agravou quando veio à tona sua adjudicação de um apartamento do programa de moradias sociais do governo, seguida pela divulgação de um áudio em que supostamente pedia intercâmbio sexual envolvendo um menor de idade. Em 30 de março de 2026, Vera foi expulso por unanimidade, sob a acusação de uso indevido de influências.

Hernán Rivas, por sua vez, enfrentou denúncias de uso de título falso de advogado para ocupar cargos no sistema de justiça, como representante do Senado no Jurado de Enjuiciamiento de Magistrados. Durante meses, o cartismo o protegeu, concedendo-lhe uma licença em vez de abrir processo de perda de investidura. Mas, quando a Sala Penal da Corte Suprema anulou seu sobreseimento e ordenou julgamento oral, Rivas renunciou no dia seguinte. A oposição exigiu investigar uma possível rede de títulos falsos envolvendo universidades e órgãos estatais.

O caso mais grave foi o de Erico Galeano, condenado a 13 anos de prisão por lavagem de dinheiro e associação criminosa no âmbito da operação “A Ultranza”. Minutos antes de o Senado votar sua expulsão, Galeano renunciou, encerrando a sequência de quedas que expõe a fragilidade do sistema de blindagem política.

Especialistas e líderes da oposição apontam que a sucessão de saídas não é fruto do acaso, mas reflexo de uma cidadania cada vez menos tolerante com privilégios e bancas ocupadas por legisladores sob suspeita. O cartismo, que até então mantinha coesão em torno de seus membros, viu-se obrigado a ceder diante da pressão combinada da opinião pública, da imprensa e de setores jurídicos.