Neste sábado, 15 de agosto, a cidade de Assunção comemora 489 anos de sua fundação, um marco que revela profundos contrastes entre um boom imobiliário moderno e o abandono do seu centro histórico. A capital paraguaia, que abriga cerca de meio milhão de habitantes, vê sua paisagem ser transformada por torres corporativas, enquanto lida com problemas crônicos de infraestrutura e a preservação de sua identidade.
A cidade foi fundada em 1537 por Juan de Salazar y Espinosa, que integrava a expedição de Pedro de Mendoza. A fundação ocorreu de forma singular, a partir de um pacto não violento com a tribo Cario, que habitava a região. Em troca de provisões, os espanhóis prometeram construir um forte militar para auxiliar na defesa contra tribos rivais. Cumpriram o acordo e estabeleceram o "porto e casa forte Nossa Senhora Santa Maria da Assunção". Este ato fez da cidade a "Mãe das Cidades", pois dali partiram expedições que fundaram outras importantes cidades sul-americanas, como Buenos Aires e Santa Cruz de la Sierra.
Atualmente, o eixo corporativo de Assunção vive um acelerado boom imobiliário, impulsionado pela estabilidade macroeconômica e por investimentos nacionais e internacionais. Estimativas indicam que entre 800 e 1.000 edifícios foram erguidos na capital e arredores nos últimos quatro anos, com zonas como Villa Morra, Recoleta e Molas López concentrando a maior parte dos novos empreendimentos. O setor projeta movimentar cerca de US$ 3 bilhões em 2026.
Entretanto, esse crescimento não é uniforme e sobrecarrega a infraestrutura existente. A concentração de empresas na capital faz com que mais de 600 mil veículos e 1,3 milhão de pessoas adentrem a cidade diariamente, causando grave saturação no trânsito. Moradores de bairros em desenvolvimento reclamam da falta de estacionamento e da pressão sobre serviços básicos como energia e água, uma vez que áreas originalmente residenciais não foram projetadas para suportar tal densidade.
Especialistas apontam contradições nesse desenvolvimento. O arquiteto e ex-vereador Federico Franco Troche classificou como "suspeito" o fato de muitos edifícios modernos e luxuosos permanecerem com alta taxa de ociosidade. Já em 2023, estimava-se que apenas 30% dos apartamentos estivessem ocupados, levantando questões sobre a dinâmica do mercado. Um relatório do meio argentino La Nación, em 2025, aprofundou suspeitas de que parte significativa do capital aplicado, especialmente de origem argentina, estaria envolvida em operações de lavagem de dinheiro, uma alegação que carece de confirmação oficial.
O magíster Mauricio Maluff Masi alerta que Assunção enfrenta uma sobreposição de crises: de habitação, mobilidade, finanças municipais, meio ambiente e identidade. O crescimento em altura mudou a fisionomia da cidade, mas não foi acompanhado por um planejamento urbano adequado por parte da administração municipal, deixando evidente o abismo entre a imagem de prosperidade e a realidade de seus serviços e do seu patrimônio histórico.
