Ciudad del Este, no Paraguai, vive um paradoxo econômico e social impulsionado pela chegada de milhares de estudantes brasileiros. Atraídos por mensalidades mais acessíveis e pela ausência de exames de ingresso rigorosos, cerca de 22 mil jovens do Brasil cursam medicina em faculdades privadas da região. Esse fluxo universitário injeta mais de US$ 14 milhões mensais na economia local, principalmente por meio de transferências via Pix, remessas e gastos em serviços.
No entanto, o impacto positivo esconde uma crise habitacional que afeta diretamente os moradores locais. A alta demanda por apartamentos para estudantes elevou os aluguéis em bairros tradicionais como Boquerón, Obrero, Ciudad Nueva e San Isidro. Um monoambiente que custava G. 800.000 agora pode chegar a G. 2.300.000, valor inacessível para quem recebe salário mínimo no Paraguai. Muitas famílias foram forçadas a se mudar para áreas mais distantes, precarizando sua qualidade de vida.
O boom imobiliário, que já atraiu mais de US$ 300 milhões em investimentos, transformou terrenos antes desvalorizados em blocos residenciais de médio porte. Enquanto isso, a falta de regulamentação dos preços de aluguéis e de um plano urbano atualizado deixa os cidadãos locais desprotegidos. Para os estudantes brasileiros, os valores são acessíveis, mas para os paraguaios, tornaram-se proibitivos.
Carlos Aponte, economista e advogado, destaca que o fenômeno vai além da educação. O Paraguai se tornou um polo de atração devido à estabilidade macroeconômica, carga tributária baixa e facilidades para obtenção de documentos de residência. Isso atraiu não apenas estudantes, mas também famílias inteiras que buscam oportunidades profissionais em áreas como arquitetura, engenharia civil e comércio virtual.
Apesar dos benefícios econômicos, o crescimento desordenado de Ciudad del Este expõe um desafio urgente: como atrair capital estrangeiro sem expulsar a própria população. A cidade vive a contradição de um desenvolvimento que enriquece alguns setores, mas deixa muitos sem acesso a moradia digna.
