Criminalidade organizada domina o mercado negro de tirzepetida na fronteira do Alto Paraná

Furtos, contrabando e falsificação de tirzepetida – medicamento para emagrecimento – se intensificam na região da Tríplice Fronteira. Grupos armados lucram com margens de até 415%, enquanto farmacêuticos denunciam a resposta fraca da polícia e do Ministério Público.

Criminalidade organizada domina o mercado negro de tirzepetida na fronteira do Alto Paraná
Criminalidade organizada domina o mercado negro de tirzepetida na fronteira do Alto Paraná

A demanda por tirzepetida, iniciada no segundo trimestre de 2025, disparou em 2026, atraindo diferentes facções criminosas na região da Tríplice Fronteira. Primeiro surgiram assaltantes que invadiram farmácias e depósitos, depois contrabandistas que transportam o fármaco pelo Ponte da Amizade rumo ao Brasil, e, mais recentemente, falsificadores que reproduzem marcas e vendem produtos adulterados a preços menores.

Segundo o vocero da Associação de Proprietários de Farmácias do Alto Paraná, Gerardo Rivarola, os roubos já contabilizam perdas de cerca de US$ 2 milhões para os comerciantes locais. “Vemos com muita preocupação o avanço de grupos criminosos no mercado negro de medicamentos. O controle estatal é insuficiente, a polícia e o Ministério Público não reagem nem investigam adequadamente”, afirmou.

Os números do contrabando são alarmantes. Dados da Receita Federal de Foz de Iguaçu indicam que, nos primeiros meses de 2026, foram apreendidas 64 mil unidades de tirzepetida – dez vezes mais que o total de 2024. Estudos do Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras (IDESF) apontam margens de lucro de até 415 % para o tráfico, explicando o interesse de facções e de indivíduos que cruzam a fronteira para comprar o fármaco, já que o Brasil só permite a produção por uma única empresa, enquanto o Paraguai tem três fabricantes que reduzem o preço interno.

Além dos furtos, a falsificação se tornou a maior ameaça à saúde dos consumidores. Operações recentes em Ciudad del Este desmantelaram centros que produzem versões falsificadas, vendidas a preços ainda mais baixos que os originais. Rivarola alertou que “a falsificação já é um nível de perigosidade mais preocupante mesmo que os assaltos, que também já cobraram vidas”.

O comércio informal também se beneficia de campanhas de marketing agressivas nas áreas de fronteira, com promotoras distribuindo panfletos e influenciadores realizando eventos de lançamento. Apesar da proibição da publicidade de medicamentos pela Direção Nacional de Vigilância Sanitária (Dinavisa), a prática é comum em Ciudad del Este, onde cerca de 60 % das vendas de farmácias são de tirzepetida.

Os farmacêuticos pedem uma ação coordenada entre a polícia, o Ministério Público e as autoridades sanitárias para fiscalizar lotes, verificar faturas e impedir a circulação de produtos falsificados, especialmente nos pequenos comércios e nas vendas informais nos bairros.