Crise na Bolívia: protestos, bloqueios e pedidos de renúncia pressionam governo de Rodrigo Paz

Manifestações que começaram com reivindicações salariais e contra a qualidade dos combustíveis evoluíram para uma crise política com exigências de renúncia do presidente boliviano, enquanto os Estados Unidos e governos regionais oferecem apoio e a Colômbia fala em 'insurreição popular'.

Uma onda de protestos e bloqueios de estradas tomou conta da Bolívia nas últimas semanas, transformando demandas setoriais em uma crise política que ameaça o governo do presidente Rodrigo Paz. O estopim foi a mobilização de camponeses e indígenas da Amazônia, que caminharam 24 dias desde a região de Pando até La Paz para exigir a anulação da Lei 1720, que permitia a reclassificação de pequenas propriedades rurais como médias para acesso a crédito bancário. Os manifestantes temiam que a norma abrisse caminho para a concentração de terras.

Embora Paz tenha revogado a lei em 13 de maio, o gesto não conteve a insatisfação. Sindicatos aimarás do altiplano de La Paz aderiram aos bloqueios, e a Central Obrera Boliviana (COB) apresentou uma pauta com mais de 200 reivindicações, incluindo aumento salarial de 20%, controle da inflação — que fechou 2025 em 20,4% e acumula 14,18% até abril — e garantias contra a privatização de estatais. A COB lidera protestos diários com professores, operários, camponeses e mineiros, mas o presidente rejeitou a maior parte das exigências, embora tenha fechado acordos pontuais com educadores e cooperativas de mineração.

O conflito ganhou contornos políticos quando o líder da COB, Mario Argollo, e a Federação de Camponeses Tupac Katari firmaram um pacto, em 6 de maio, para forçar a renúncia de Paz, classificando-o como “incapaz”. No mesmo dia, agricultores iniciaram bloqueios em estradas que ligam o país ao Peru e ao Chile. O governo acusa o ex-presidente Evo Morales de incentivar os distúrbios, enquanto a Procuradoria emitiu ordens de prisão contra Argollo e outros dirigentes por suposta instigação pública ao crime e terrorismo. Segundo as autoridades, três mulheres, entre elas uma cidadã de Belize, morreram por falta de atendimento médico devido aos cortes de rotas.

Em 11 de maio, centenas de partidários de Morales partiram de Caracollo rumo a La Paz, em uma marcha de aproximadamente 190 quilômetros, para rejeitar reformas do governo e pedir a saída do mandatário. A mobilização coincidiu com a emissão de uma segunda ordem de captura contra o ex-presidente, que não compareceu a um julgamento por tráfico agravado de pessoas, relacionado a um suposto relacionamento com uma menor de idade durante seu mandato, entre 2015 e 2016, segundo a Procuradoria.

Em 16 de maio, o governo mobilizou policiais e militares para abrir um “corredor humanitário” em algumas vias, mas os camponeses retomaram os bloqueios após confrontos em El Alto, cidade vizinha a La Paz. A tensão atingiu o pico em 18 de maio, quando a marcha pró-Morales entrou na capital e se uniu a outros setores em protestos violentos que deixaram um rastro de destruição em instalações públicas e privadas. Os choques resultaram em mais de 120 detidos, dos quais 90 foram liberados posteriormente.

No plano internacional, os Estados Unidos classificaram os protestos como uma tentativa de golpe. O secretário de Estado, Marco Rubio, declarou que Washington “apoia firmemente o governo constitucional legítimo da Bolívia” e que “não permitirá que criminosos e traficantes de drogas derrubem líderes eleitos democraticamente”. Governos de direita, como os da Argentina, Chile e Paraguai, também manifestaram respaldo a Paz. Em contraste, o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, afirmou que está em curso uma “insurreição popular”, o que levou à expulsão da embaixadora colombiana em La Paz.