O samu'u que floresce no exílio: um embaixador vegetal do Paraguai em Montevidéu

A Ceiba chodatii, árvore emblemática do Chaco paraguaio, ganha um exemplar raro de flores amarelas no Parque Rodó, em Montevidéu. O botânico amador Antonio Schinca documenta as dificuldades reprodutivas do espécime, que floresce no inverno austral e sofre com a falta de polinizadores. A árvore, conhecida como samu'u, também é usada no Chaco para fazer canoas que transportam crianças à escola durante as inundações.

Há árvores que viajam na memória. O samu'u de flores amarelas que floresce no Parque Rodó, em Montevidéu, é uma delas. Antonio Schinca, um uruguaio que visita e fotografa o exemplar, descreve-o como "um puente vivo hacia el Paraguay". A cada florada, ele registra a beleza da Ceiba chodatii, árvore da família Malvaceae que no Chaco paraguaio assume a forma de botella para armazenar água e sobreviver à seca extrema.

O nome científico homenageia o botânico suíço René Chodat, que estudou a flora paraguaia no final do século XIX e início do XX. No Uruguai, porém, o solo úmido impede que o tronco desenvolva o característico alargamento basal. "Este é o único samu'u de flores amarelas que conheço no Uruguai", diz Schinca. A variedade de flores rosadas, a Ceiba speciosa, é comum no país; a de flores brancas ou amarelas é raríssima.

A vida do exemplar solitário não é fácil. Ele floresce no inverno austral, quando o frio afasta insetos e beija-flores, acostumados a buscar flores rosadas. A polinização é escassa: onde outros produzem frutos em abundância, este mal chega a seis ou sete. E muitos caem ao chão sem abrir, sem liberar o algodão que dispersa as sementes. Um ciclone recente derrubou mais de 70% das flores. Schinca fotografou uma abelha extraindo pólen de uma flor caída — metáfora da resistência.

No Paraguai, o samu'u tem outra vida. Lidia Pérez de Molas recorda que, no Chaco inundado, canoas feitas da madeira da árvore ainda são usadas para levar crianças à escola. "Sua madeira era usada para fazer canoas", acrescenta Schinca. A imagem do tronco espinhoso convertido em embarcação que navega a inundação e leva conhecimento aos jovens revela o diálogo entre natureza e cultura.

A conversa entre Montevidéu e o Paraguai — fotos, áudios, palavras de botânicos e amigos — reflete o que o samu'u representa: uma árvore que convoca, que une através de fronteiras e quilômetros. Como escreve Schinca, "os árboles que merecen ser vistos nos enseñan también a ver mejor".