Guarani vive auge cultural no Paraguai, mas especialistas alertam para risco de deslocamento linguístico

Apesar do auge cultural do guarani no Paraguai, com uso crescente nas artes e instituições, especialistas alertam para um risco de deslocamento linguístico, com falantes incorporando o espanhol por necessidade e o percentual de monolíngues diminuindo.

Guarani vive auge cultural no Paraguai, mas especialistas alertam para risco de deslocamento linguístico

O guarani vive um momento de grande visibilidade cultural no Paraguai, impulsionado por seu uso em instituições públicas, redes sociais e nas artes, mas especialistas alertam para riscos de deslocamento linguístico. A revista britânica The Economist descreveu o idioma como "o idioma hipster da América do Sul", destacando seu resurgimento.

O artigo cita o exemplo de aulas de medicina na Universidade Nacional de Assunção ministradas em guarani, onde estudantes aprendem termos técnicos como "pytyvõpya’ehasývape" (primeiros socorros) e "ñembovo" (cirurgia). Segundo a publicação, cerca de 90% da população paraguaia compreende o guarani e quase 40% o fala diariamente em casa, ao lado do espanhol, uma das taxas de bilinguismo mais altas do mundo.

A transformação do status do idioma foi marcante. Após ser desprezado por elites no passado, o guarani foi reconhecido como língua oficial com a Constituição de 1992, e uma lei de 2010 estabeleceu um currículo e uma administração pública bilíngues. Hoje, é possível votar, casar e ser julgado no idioma.

Além do âmbito oficial, há uma efervescência cultural. A Ode à Alegria, de Beethoven, foi interpretada em guarani pela Orquestra Sinfônica Nacional, influenciadores produzem conteúdo sobre o idioma no TikTok e artistas incorporam o "jopará" – a mistura cotidiana de guarani e espanhol – em gêneros como rap e jazz.

Contudo, há uma preocupação subjacente. Arnaldo Casco, funcionário da Secretaria de Políticas Linguísticas (SPL), descreveu ao The Economist um "processo de deslocamento", no qual falantes de guarani estão incorporando o espanhol por necessidade social, educacional ou profissional. O material da revista britânica afirma que o percentual de pessoas que falam apenas guarani diminuiu entre 2002 e 2022, embora não cite o número exato.

Em um artigo separado publicado pelo jornal La Nación, Arnaldo Casco Villalba explora as peculiaridades linguísticas e culturais do guarani. Ele explica que o idioma possui 33 letras – nenhuma muda – e 12 vogais, o que contribui para sua sonoridade única. O texto também aborda o conceito central de "py'a" (estômago), termo que origina palavras relacionadas a emoções e pensamentos, como "py’aguapy" (paz) e "py’akuaa" (empatia).

A SPL busca expandir o uso do guarani para todas as esferas da vida social, desenvolvendo desde dicionários técnicos até poesia, enquanto modelos de linguagem em larga escala são treinados no idioma. A mudança nas normas sociais é perceptível, com muitos paraguaios que antes tinham receio de falar guarani agora se sentindo completamente livres para usá-lo.

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Fontes (2)

Atualizado: 24 de ago. de 2026, 01:00