Beethoven em guaraní: 'Háa vy'avete' une a Novena Sinfonia à língua ancestral do Paraguai

Sob a batuta de Diego Sánchez Haase, a Orquestra Sinfônica do Congresso Nacional e mais de cem vozes corais apresentaram em Assunção o projeto 'Háa vy'avete', que levou o coro final da Nona Sinfonia de Beethoven a ser cantado em guaraní, mesclando o idioma coloquial com vocábulos do mbya.

O Teatro Municipal de Assunção foi palco, nos últimos dias, de uma experiência que transcendeu o plano musical: a apresentação da Nona Sinfonia de Beethoven com seu célebre coro final — o 'Hino à Alegria' — cantado em guaraní. Sob o nome Háa vy'avete, o projeto reuniu a Orquestra Sinfônica do Congresso Nacional (OSIC), mais de cem vozes corais e solistas, sob a direção do maestro Diego Sánchez Haase.

A iniciativa, idealizada por Fernando Robles e desenvolvida em parceria com o antropólogo Cristóbal Ortiz — falecido antes de ver o trabalho concretizado —, combinou o guaraní coloquial com palavras do mbya, uma das seis variantes da família linguística guaraní. A tradução do texto de Friedrich Schiller foi adaptada metricamente por Robles, e o maestro Nicolás Ramírez Salaberry ajustou as sílabas à partitura original de Beethoven.

Em entrevista, Sánchez Haase destacou o impacto simbólico de ver uma língua originária da América do Sul dialogar com uma das obras capitais do repertório sinfônico europeu. “A música é o reflexo do idioma que fala uma região e um compositor”, afirmou. “A abundância de consoantes no alemão influencia a articulação; no guaraní, a sonoridade é diferente.”

O maestro observou que, ao ouvir os primeiros versos em guaraní, notou uma mudança de caráter: “No alemão, o baixo dá uma ordem aos amigos para deixar de escutar sons dissonantes; no guaraní, parece que ele pede, com mais suavidade, que se ouçam melodias mais doces.” Para ele, essa convergência fortalece a mensagem de fraternidade universal da Nona Sinfonia.

O projeto contou com financiamento parcial do Fondo Nacional para la Cultura y las Artes (FONDEC) e apoio da Delegação da União Europeia no Paraguai, além das empresas Tecinci, Hotel Cecilia e Bohéme Flores. Sánchez Haase classificou a experiência como “trascendental” para a difusão do guaraní em um dos territórios mais exigentes da música universal.