A cada dia surgem novas vítimas da chamada mafia dos pagarés no Paraguai, um esquema fraudulento que causa perdas significativas a famílias e pequenos empresários. Um caso recente envolve uma família que perdeu sua casa por uma dívida de apenas G. 15 milhões, valor que representa cerca de 1% do imóvel. O caso evidencia a lentidão do sistema de Justiça em oferecer respostas efetivas às vítimas.
Nos últimos dois anos, desde que o caso veio a público, surgiram novas modalidades de estafa que vão muito além do esquema original de descontos em salários.
O mecanismo básico funciona como uma engrenagem bem organizada: escritórios jurídicos adquirem pagarés que não foram retirados por clientes que já haviam quitado suas dívidas com empresas de eletrodomésticos e similares e, por via judicial, passam a descontar automaticamente os valores dos salários dos devedores. O esquema requer a cumplicidade de funcionários tanto do sistema de Justiça quanto das próprias empresas envolvidas.
Parlamentares da Comissão Especial do Senado que investiga o caso se reuniram recentemente com vítimas em Ciudad del Este, onde identificaram novos tipos de fraude. Um deles envolve uma firma agrícola já fechada que, segundo denúncias, teria vendido pagarés por cerca de USD 200 milhões. Os produtores afetados afirmam ter assinado os documentos como garantia de linhas de crédito e quitado suas obrigações, mas os papéis nunca foram devolvidos e acabaram negociados com uma financiera norteamericana que não está inscrita nem tributa no Paraguai.
A Coordinadora de Víctimas denunciou que o esquema criminal cresce de forma dramática e já não se limita a reter salários e pensões: comunidades camponesas, empreendedores e pequenos empresários estão sendo despojados de terras, moradias e pontos comerciais. Segundo a organização, subastas e desalojos são executados em chamados juicios secretos, deixando as famílias em absoluta indefensão.
Um dos casos mais emblemáticos é o de Sergio Daniel Ruiz Díaz e sua esposa, que ficaram presos no registro de inadimplentes da Informconf (Equifax SA) por uma dívida que nunca foi deles. O suposto débito de G. 150.000 saltou para G. 4 milhões em apenas dois anos, impedindo o casal de acessar crédito e seguir com sua vida profissional. Ao tentar regularizar a situação, foram informados de que deveriam pagar quase 3.000% a mais do que o valor originalmente registrado.
O advogado Jorge Rolón Luna, responsável pela denúncia pública sobre a mafia dos pagarés, explicou que os casos têm um padrão comum: as notificações aos deudores são feitas de forma fraudulenta, com os supostos devedores nunca sendo encontrados, o que gera mora artificial e acumulação de juros. Rolón Luna relatou que descobriu o esquema ao ajudar uma amiga cuja mãe, aposentada e com sequelas de um acidente vascular cerebral que a impediam de assinar documentos há anos, teve pagarés, notificações e até testemunhas falsificados em seu nome.
Segundo o advogado, empresas de cobrança, casas de crédito, escritórios jurídicos e advogados tinham plena consciência do alcance do esquema de estafa massiva. Diante das arbitrariedades, cresce a pressão para que o sistema paraguaio de Justiça assuma sua responsabilidade e garanta reparação às vítimas, evitando que os responsáveis — sejam funcionários corruptos, advogados ou empresas — fiquem impunes.
