A entrada em força de plataformas globais de comércio eletrônico, como Shein, Temu e Amazon, está redesenhando o mercado de vestuário no Paraguai. O que antes era uma disputa entre marcas locais se transformou, segundo representantes do setor, em uma competição direta com empresas de alcance mundial que oferecem produtos a um clique de distância e, em muitos casos, a preços difíceis de igualar pela produção nacional.
O fenômeno se intensificou com a queda do dólar, que impulsionou as compras internacionais. De acordo com a Cámara Paraguaya de Empresas de Courier Internacional (Capeci), vestuário e calçados estão entre as categorias mais demandadas nas compras feitas especialmente em plataformas asiáticas de e-commerce.
"Já não competimos apenas com as marcas locais, mas praticamente com o mercado global. Isso elevou o nível de competição para todos", afirmou Luis Bogado, diretor da Kyrios, marca paraguia de roupas esportivas. Ele destacou que o comportamento do consumidor mudou significativamente, com maior exigência em qualidade, rapidez de entrega, possibilidade de troca, atendimento pós-venda e confiança na marca. "Aí as empresas nacionais ainda temos uma vantagem importante", sustentou.
Bogado reconheceu que a indústria têxtil paraguaia vive um de seus melhores momentos em termos de crescimento e profissionalização, com capacidade de exportar, gerar emprego e atrair investimentos. Para ele, o desafio já não é apenas fabricar mais, mas produzir melhor, com maior valor agregado, inovação, design e qualidade.
Sobre a concorrência com produtos importados, respondeu que "nem sempre" competem em igualdade de condições. As empresas paraguaias cumprem obrigações tributárias, trabalhistas e previdenciárias, além de investir em infraestrutura e gerar emprego formal, enquanto as mercadorias internacionais chegam sob esquemas distintos de tributação e custos. "Não cremos que a solução seja fechar o mercado. A competição é positiva porque obriga a melhorar. Mas sim cremos que todos deveriam competir sob regras semelhantes para que exista uma competição verdadeiramente justa", destacou.
No caso da indústria paraguaia de roupas esportivas, Bogado apontou que o principal desafio surge da combinação de três fatores: a pressão por preço e variedade das plataformas internacionais, a força contínua das importações tradicionais e a informalidade, que gera concorrência desleal para quem cumpre todas as obrigações legais. Ele ressaltou que uma peça esportiva fabricada no Paraguai tem como vantagem o valor agregado, com melhor controle de qualidade, reposição mais rápida, garantia, atendimento ao cliente e conhecimento mais profundo do consumidor local.
"No nosso caso, na Kyrios, estamos apostando fortemente em fornecedores internacionais de primeiro nível, novos materiais e processos de fabricação que nos permitam competir por qualidade e não somente por preço", apontou.
Enquanto as empresas voltadas para o mercado interno enfrentam a concorrência internacional, o setor maquilador vive uma realidade de expansão das exportações. O presidente da Cámara de Empresas Maquiladoras del Paraguay (Cemap), Jorge Bunchicoff, afirmou que o desempenho da indústria têxtil e de confecções sob esse regime é claramente positivo. O setor maquilador superou US$ 1,3 bilhão em exportações durante 2025, com confecções e têxteis representando cerca de 16% do total exportado nesse regime.
"O setor têxtil e de confecções se consolidou como um dos principais motores da industrialização do Paraguai. Nos últimos anos se constatou um crescimento sustentado das exportações, do investimento e do emprego formal", afirmou Bunchicoff, destacando que as maquiladoras geram mais de 35 mil empregos formais e que o setor têxtil é um dos maiores empregadores industriais do país.
Apesar do crescimento das exportações, a presença de roupas importadas de baixo custo no mercado local também aumenta. Bunchicoff concordou que a abertura comercial oferece mais opções aos consumidores e pode ser benéfica para a economia, desde que haja igualdade de condições. "A competição sempre é bem-vinda. Nossa preocupação não passa por competir contra produtos importados, mas por garantir que todos os atores compitam sob as mesmas regras", sinalizou.
Nesse sentido, defendeu como indispensável combater o contrabando, a subfaturação e qualquer prática de concorrência desleal que prejudique tanto a indústria nacional quanto o emprego formal. "A indústria paraguaia cumpre com todas as obrigações laborais, tributárias, ambientais e de seguridade social. Quando os produtos importados ingressam respeitando exatamente as mesmas normas, a competição é absolutamente válida", afirmou.
Tanto Bunchicoff quanto Bogado coincidiram em que o caminho para fortalecer a competitividade do setor passa por investir em tecnologia, automação, capacitação de talentos humanos, inovação e desenvolvimento de marcas paraguaias com identidade própria.
