Com o endurecimento dos requisitos para obtenção de crédito no sistema financeiro tradicional, onde parte significativa das solicitações de empréstimo pessoal é rejeitada, plataformas digitais de financiamento encontraram um mercado em expansão na região. Milhares de usuários recorrem a esses aplicativos atraídos pela promessa de dinheiro depositado em minutos, sem burocracia e sem consulta a histórico creditício, mas acabam enfrentando condições financeiras bem menos vantajosas do que as anunciadas.
Denúncias apresentadas por consumidores e registradas por órgãos reguladores de diversos países apontam que algumas dessas plataformas aplicam taxas de juros que podem superar 60% ao ano, além de cobrar despesas administrativas superiores a 30% do valor desembolsado. Em muitos casos, o usuário visualiza uma taxa de juros aparentemente baixa, mas no momento do recebimento são descontados valores elevados sob justificativas como taxas de gestão, comissões operacionais ou serviços complementares. Há ainda plataformas que estruturam suas operações por meio da venda de produtos digitais associados, incorporando encargos que elevam substancialmente o custo final do empréstimo.
A situação se agrava quando ocorrem atrasos nos pagamentos. Para funcionar, diversos aplicativos solicitam acesso a funções sensíveis do celular, como câmera, galeria de imagens e, principalmente, a lista de contato. Segundo denúncias registradas em vários países latino-americanos, algumas plataformas utilizam essas informações para pressionar os deudores por meio de mensagens enviadas a familiares, amigos ou empregadores. Em casos extremos, as vítimas relatam campanhas de assédio digital com mensagens intimidatórias, exposição pública da dívida e divulgação de dados pessoais. No México, essa modalidade ficou conhecida como "montadeudas" e motivou investigações policiais e operações contra redes dedicadas a essas práticas.
Uma usuária identificada como Carmen relatou em redes sociais que, ao não conseguir pagar o primeiro empréstimo, a própria plataforma indicou um link para outro aplicativo para que pudesse solicitar novo crédito e quitar a dívida anterior. Em menos de um mês, estava presa em um circuito de cinco aplicativos diferentes, todos com mecanismos de cobrança agressivos.
A velocidade com que essas plataformas se multiplicam tende a superar a capacidade de adaptação dos marcos regulatórios. No Paraguai, a Fiscalía e a Secretaría de Defesa del Consumidor y el Usuario (Sedeco) registram aumento de denúncias ligadas a cobranças abusivas e práticas de assédio. No Chile, la Comisión para el Mercado Financiero emite alertas periódicas sobre plataformas que operam sem autorização. Na Colômbia, a Superintendencia Financiera recomenda que os usuários verifiquem previamente se as entidades estão registradas e habilitadas para funcionar.
Especialistas ouvidos sobre o tema concordam que o problema exige uma combinação de medidas regulatórias, persecuição de crimes informáticos e ampliação da inclusão financeira. Enquanto amplos setores da população continuarem enfrentando dificuldades para acessar o crédito formal, as plataformas de financiamento de alto custo seguirão encontrando espaço para se expandir, aproveitando a necessidade urgente de pessoas que, muitas vezes, não dispõem de alternativas dentro do sistema bancário tradicional.