A Justiça dos Estados Unidos ampliou e endureceu a acusação contra o uruguaio Sebastián Marset, apontado como líder do chamado "Primeiro Cartel Uruguayo", com forte atuação no Paraguai. Promotores federais apresentaram uma segunda acusação formal que inclui os crimes de narcoterrorismo e tráfico internacional de cocaína, além de conexões com o colombiano Clan del Golfo.
A mudança na carátula judicial ocorreu poucos dias após Marset enviar uma carta a um juiz federal na qual denunciou que agentes americanos teriam pressionado sua mãe para entregar as senhas de acesso à sua carteira virtual de criptomoedas. Com a nova peça, o Departamento de Justiça dos EUA passa a imputá-lo por quatro crimes federais graves.
Segundo o documento, Marset liderava uma organização criminosa estruturada na América do Sul que enviava toneladas de cocaína a vários pontos do mundo, com especial foco no mercado europeu. O cargo de narcoterrorismo coloca o caso em uma categoria jurídica rigorosa: os promotores alegam que, entre 2018 e março de 2026, ele fabricou e distribuiu substâncias proibidas ao mesmo tempo em que fornecia, de forma consciente, apoio material a uma organização considerada terrorista global — no caso, a própria rede de narcotráfico que comandava.
Em janeiro de 2025, a Casa Branca havia ordenado formalmente que agências de segurança classificassem certos cartéis transnacionais como organizações terroristas estrangeiras, medida que facilita bloqueios financeiros e permite penas mais severas.
A investigação detalha que, em junho de 2024, Marset coordenou com um integrante do Clan del Golfo o envio de 1.700 quilos de cocaína em uma lancha rápida com destino à Costa Rica. A operação fracassou após a Armada da Colômbia interceptar a embarcação no mar do Caribe e recuperar 1.653 quilos da droga que os tripulantes haviam jogado na água ao serem encurralados.
A acusação também abrange lavado de dinheiro com ligação direta ao Paraguai. O documento menciona as atividades do paraguaio Federico Santoro Vassallo, inicialmente processado junto com Marset. Santoro se declarou culpado em março deste ano e já foi condenado a 15 anos de prisão nos Estados Unidos. Segundo a promotoria, ele e outro operador financeiro radicado no Paraguai moviam os lucros ilícitos da organização por meio de entregas de dinheiro em grande escala, criptomoedas e transferências bancárias internacionais. Como exemplo, foi identificada uma transferência de 31.800 dólares proveniente do narcotráfico, enviada de um banco de Portugal a um fornecedor de logística na China e processada por meio de um banco correspondente do Bank of America na Virgínia.
Diante das acusações, o advogado de defesa Robert Feitel pediu formalmente a anulação do crime de conspiração para lavado de dinheiro, argumentando que os promotores não demonstraram vínculo legal suficiente entre os movimentos financeiros e o Distrito Leste da Virgínia, sede do julgamento.
Marset, para quem o governo americano oferecia uma recompensa de até 2 milhões de dólares, foi capturado na Bolívia em março deste ano, após anos de busca internacional. Sua posterior extradição aos Estados Unidos deu início ao processo penal que agora o coloca sob leis antiterroristas.
