A Colônia San Oscar Romero, antigo cenário da Masacre de Curuguaty ocorrida em 15 de junho de 2012, completa 14 anos neste mês como símbolo de justiça social e regularização fundiária no campo paraguaio. O que por mais de uma década parecia uma ferida aberta transformou-se, a partir de agosto de 2023, em um processo de resolução definitiva conduzido pelo governo do Paraguai e pelo Instituto de Desarrollo Rural y de la Tierra (Indert), que substituiu desalojos violentos pela entrega formal de títulos de propriedade às famílias camponesas.
A dirigente da ex Marina Cué, Martina Paredes, lembrou que neste 15 de junho se recordam 14 anos de uma data lamentável para a comunidade, além de 13 anos de luta pela titulação das terras. Ela destacou que as famílias hoje estão tranquilas e que 70% dos moradores já receberam seus títulos de propriedade, com planos de construção de casas e de melhoria do transporte da produção local.
A transformação ganhou impulso decisivo a partir da gestão iniciada em 2023 pelo presidente Santiago Peña e pelo titular do Indert, Francisco Ruiz Díaz. Antes disso, 1.748 hectares tiveram que ser desafectados de sua condição de reserva natural pelo Ministério do Ambiente MADES para serem incorporados ao patrimônio do Indert. Em seguida, foi criado um Comitê Especial de Mediação e, em julho de 2024, começaram os trabalhos de levantamento e varredura predial direta nos 243 lotes da colonia, com o objetivo de identificar os verdadeiros beneficiários da reforma agrária.
Em outubro de 2025, o presidente Santiago Peña viajou até Curuguaty para entregar os primeiros 80 títulos oficiais de propriedade, saldando uma dívida histórica com as famílias das vítimas. Em abril de 2026, o Indert conseguiu destravar o conflito de superposição de títulos sobre 36 lotes por meio de um acordo pacífico direto firmado com a empresa Campos Morombí e a Comissão de Fomento de Marina Cué, garantindo que 100% da colonia seja titulada de forma legal.
A experiência de Curuguaty serviu de base para o modelo de solução de controvérsias agrárias que o Indert implementou com sucesso na Colônia Santa Teresa Manduarã, no distrito de Abaí, departamento de Caazapá, onde se resolveu um conflito de 32 anos. A mediação foi conduzida por uma comissão especial encabeçada por Francisco Ruiz Díaz, com três representantes da comissão vecinal San Oscar Romero e o sacerdote Pascual Kinoti. Em janeiro de 2026, uma verificação técnica consensuada confirmou que cerca de 500 famílias eram descendentes legítimas dos pioneiros da colonia, e o relatório final foi apresentado à Presidência da República e ao Bispado de Caazapá, selando um acordo definitivo sem vítimas.
Contexto: O massacre de Curuguaty, ocorrido em 15 de junho de 2012, resultou na morte de 17 pessoas — 11 camponeses e 6 policiais — durante um desforjo de terras na então chamada Marina Cué. O episódio, um dos mais graves da história recente do Paraguai, provocou a destituição do presidente Fernando Lugo e se tornou um símbolo das tensões agrárias no país, onde a concentração fundiária e os conflitos por terra persistem como questões centrais.
