A Itaipú Binacional projeta um cenário de expansão massiva que poderia instalar uma capacidade equivalente à da própria usina hidrelétrica atual, mas construída inteiramente com painéis solares flutuantes sobre seu reservatório. Segundo o engenheiro Pedro Domaniczky, superintendente de Energias Renováveis da entidade, a exploração de apenas 10% da superfície total do espelho d'água permitiria injetar quase 14.000 megawatts (MW) de potência adicional ao sistema.
A revelação foi feita durante o painel "Energia e construção no Paraguai, desafios para a sustentabilidade", realizado no Centro de Convenções da Conmebol, em Luque, no marco da 26ª edição da feira Constructecnia. O plano estratégico visa mitigar a dependência total da central dos regimes de chuvas e da vazão do rio Paraná, permitindo um crescimento elétrico agressivo sem a necessidade de inundar novas terras ou alterar o acordo tripartite de navegação.
Domaniczky destacou que o reservatório da Itaipú cobre 134.000 hectares, uma área comparável a 134.000 campos de futebol. O modelo de geração hidrosolar propõe uma sinergia com a represa tradicional: durante as horas de maior radiação solar, quando o consumo dispara no Paraguai devido ao uso massivo de ar-condicionado, os painéis operariam na capacidade máxima. Isso equilibraria a carga e permitiria "economizar" água nos reservatórios para os momentos de alta demanda noturna.
Além da geração de energia, a instalação de estruturas flutuantes reduz em até 70% a evaporação pontual da água coberta. O vapor do lago e o vento geram ainda um efeito de resfriamento natural que otimiza a produção dos painéis entre 10% e 12% em comparação com usinas construídas em terra firme.
Para demonstrar a viabilidade do projeto além de simulações teóricas, a Itaipú já opera uma planta piloto de 0,75 hectare equipada com 1.584 painéis solares de última geração, utilizando tecnologia tipo N (Topcon). O sistema gera 1.116 quilowatts (kW), energia suficiente para abastecer cerca de 700 residências de baixa renda, e atualmente cobre diretamente 40% de todo o consumo interno da própria usina hidrelétrica.
Esta instalação representa hoje a terceira maior usina solar flutuante da América do Sul, superada apenas por um complexo em São Paulo, no Brasil, e utiliza os quatro inversores de corrente elétrica mais grandes da região paraguaia. Para contrabalançar a intermitência própria da energia solar, causada pela passagem de nuvens ou dias de tempestade, a entidade confirmou que está em pleno processo licitatório para a compra e acoplamento de um banco de baterias de armazenamento de 4,4 MW, garantindo a estabilidade total da injeção energética.
O objetivo final é validar os custos e o desempenho técnico dessa experiência em escala real para propor a replicação do modelo não apenas à Administração Nacional de Eletricidade (ANDE), mas também ao setor privado, sob o novo marco regulatório nacional. A meta é levar essa solução tecnológica a zonas críticas do território, como o Chaco paraguaio, onde a escassez de água e o calor extremo exigem alternativas de vanguarda.