O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, manifestou nesta terça-feira (19) profunda preocupação com “a amplitude e a rapidez” da epidemia de ebola que atinge a República Democrática do Congo (RDC). A declaração foi feita durante a assembleia anual dos Estados-membros da OMS, enquanto o comitê de emergências era convocado para avaliar recomendações temporárias.
A OMS declarou alerta sanitário internacional no domingo (17) para enfrentar o surto da doença hemorrágica, que já causou mais de 15 mil mortes na África no último meio século. O atual balanço, segundo o ministro da Saúde congolês, Samuel Roger Kamba, é de 136 óbitos e aproximadamente 543 casos suspeitos, embora poucas amostras tenham sido analisadas em laboratório e os números se baseiem principalmente em notificações comunitárias.
O epicentro da epidemia está na província de Ituri, no nordeste da RDC, região rica em ouro e com intensa movimentação populacional devido à mineração. O vírus, porém, já ultrapassou essas fronteiras: casos suspeitos foram notificados em Butembo, na província de Kivu Norte, e um caso foi confirmado em Goma, cidade controlada pelo grupo armado M23. Uganda também registrou duas mortes de pessoas que viajaram a partir da RDC, sem que focos locais tenham sido identificados.
A cepa responsável pelo surto, chamada Bundibugyo, não dispõe de vacina nem tratamento específico. A OMS informou que está verificando se alguma vacina ou terapia existente pode ser eficaz contra essa variante, e especialistas reunidos com instituições como a Universidade de Oxford analisam a possibilidade de desenvolver um imunizante em dois meses.
No terreno, a situação é crítica. No Hospital de Rwampara, uma simples fita plástica delimita a área de casos suspeitos. “Cavamos sepulturas e enterramos os falecidos sem luvas nem qualquer proteção. Estamos muito expostos”, relatou Salama Bamunoba, representante de uma organização juvenil local. Anne Ancia, representante da OMS na RDC, afirmou não acreditar que a epidemia termine em dois meses e destacou que a amplitude dependerá da rapidez da resposta.
O ministro Kamba explicou que muitas comunidades afetadas acreditavam tratar-se de uma “doença mística”, o que levou a que doentes não fossem encaminhados a hospitais, contribuindo para o aumento de contágios. O presidente congolês, Felix Tshisekedi, pediu calma à população e prometeu “todas as medidas necessárias para reforçar a resposta”.
A União Africana, por meio do Africa CDC, declarou emergência de saúde pública continental para reforçar a coordenação regional e mobilizar recursos. Enquanto isso, países adotam restrições: os Estados Unidos iniciaram controles sanitários em aeroportos e restringirão vistos para viajantes provenientes das áreas afetadas, mas autorizarão a entrada da seleção de futebol da RDC para o Mundial. Baréin suspendeu a entrada de passageiros não bareinistas vindos da RDC, Sudão do Sul e Uganda. A Alemanha se dispôs a acolher e tratar um médico americano infectado.