Migração indígena para cidades paraguaias revela duas realidades contrastantes

Comunidades indígenas urbanas como Tarumandymi, em Luque, mostram avanços em acesso a serviços básicos, mas ainda enfrentam falta de apoio estatal para desenvolvimento econômico e combate à discriminação.

Migração indígena para cidades paraguaias revela duas realidades contrastantes
Migração indígena para cidades paraguaias revela duas realidades contrastantes

A migração de povos indígenas para áreas urbanas no Paraguai tem gerado duas faces distintas: de um lado, comunidades que conseguiram se estabelecer com acesso a serviços básicos; de outro, famílias que vivem em situação de rua, expostas a riscos como violência e exploração. Um exemplo do primeiro caso é a comunidade Tarumandymi, localizada em Luque, que abriga cerca de 500 pessoas em 86 famílias, formada a partir de 2008 e consolidada em 2012.

Valeriano Duarte, líder da comunidade e estudante de Direito, conta que a migração foi impulsionada pelo avanço da soja com uso de agrotóxicos e por despejos baseados em títulos de propriedade questionados. “As terras perto do nosso território eram alugadas para brasileiros plantarem soja. Eles nos fumigavam”, relata. A falta de serviços básicos e oportunidades, especialmente para jovens, também contribuiu para o êxodo.

Em Tarumandymi, as crianças têm escola própria e são beneficiárias do programa Hambre Cero, além de receberem alimentos do Ministério da Niñez e da Adolescência a cada duas semanas. Desde janeiro de 2026, a comunidade conta com água potável e, há um mês, cada família tem medidor de energia elétrica. O líder informa que estão buscando, por meio do Instituto Paraguayo del Indígena (INDI), tarifa social junto à Administración Nacional de Electricidad (ANDE). Unidades de saúde da família (USF) próximas garantem acesso a atendimento básico, e casos mais graves são encaminhados ao Hospital Geral de Luque, a meia hora de carro.

Apesar dos avanços, Duarte ressalta pendências: “Falta uma aposta maior do Estado para o desenvolvimento das comunidades. Máquinas, ferramentas, cursos de capacitação.” Ele menciona oportunidades perdidas de expor seu artesanato no exterior por falta de apoio institucional. Também defende a oferta de cursos de direito civil para jovens que enfrentam discriminação ao estudar na cidade.

Ricardo Morínigo, da organização Tierraviva, destaca que o reconhecimento das comunidades indígenas urbanas foi uma luta longa. “As instituições do Estado, começando pelo INDI e o MEC, não reconheciam que podiam existir comunidades urbanas.” Ele aponta que, em comparação com as comunidades rurais, as urbanas têm maior presença estatal devido à proximidade com serviços, como o programa Tekoporã para idosos.

A advogada Natalia Rodríguez, também da Tierraviva, revela que a escolaridade média de membros de comunidades indígenas na Educação Escolar Básica é de apenas 4,3 anos, contra a média nacional de nove anos. Enquanto isso, o orçamento do INDI para 2026 supera G. 80 bilhões.

Morínigo recorda que os primeiros grupos indígenas que chegaram à capital se instalaram perto de Cateura, no Cerro Guy, dedicando-se a atividades informais. A realidade contrasta com a de Tarumandymi, que recebeu um forno industrial e máquinas de costura de ONGs, gerando renda para a comunidade.