No dia 1º de agosto, o Paraguai revive uma de suas tradições mais profundas: o consumo do carrulim, uma bebida preparada com caña, ruda e limón que, segundo a crença popular, serve para espantar o azar, afastar doenças e purificar o sangue. A tradição, que inclui tomar sete goles da bebida em jejum, está ligada à percepção cultural de agosto como um mês crítico, marcado por frio, ventos, escassez e um aumento de males respiratórios.
O nome carrulim é um acrônimo dos seus ingredientes principais: ca (de caña), ru (de ruda) e lim (de limón). Sua origem remonta aos antepassados guaranis, que utilizavam as propriedades da ruda e dos cítricos combinados com licores para enfrentar o rigor do inverno. A prática foi declarada Patrimônio Cultural Imaterial do Paraguai pela Secretaria Nacional de Cultura (SNC) em julho de 2019.
O Mercado 4, em Assunção, é um dos epicentros da tradição. Nesta sexta-feira, o local recebeu um festival artístico no Paseo de los Yuyos, com uma grande presença de visitantes que foram degustar a bebida e manter viva a costumbre. Tradicionalmente, a preparação era uma tarefa artesanal das "yuyeras", que guardavam com zelo o segredo de suas proporções, às vezes adicionando outras ervas. Hoje, porém, a bebida também é industrializada e vendida pronta em supermercados, refletindo uma evolução comercial que adaptou o ritual aos ritmos urbanos.
A tradição transcende as fronteiras do Paraguai, estando fortemente arraigada em províncias do nordeste argentino, como Corrientes e Misiones, e em áreas do Grande Buenos Aires com forte presença da comunidade paraguaia, onde se entrelaça com a celebração do Dia da Pachamama.
Porém, médicos alertam para os riscos do consumo sem moderação. O doutor Carlos Centurión, chefe de Clínica Médica do Hospital de Especialidades Quirúrgicas do IPS Ingavi, explica que, embora a tradição seja um patrimônio cultural valioso, não há evidência científica que apoie a necessidade de "purificar" ou renovar o sangue em agosto. Ele ressalta que a ruda não é uma planta inofensiva: o consumo excessivo pode causar irritação digestiva, toxicidade, danos hepáticos e renais. Grávidas devem evitar totalmente a bebida, pois a ruda estimula contrações uterinas e aumenta o risco de aborto.
O especialista conclui que a tradição deve ser vivida com responsabilidade, lembrando que medidas como alimentação equilibrada, atividade física e descanso adequado são as formas comprovadas de cuidar da saúde durante todo o ano.
