O Paraguai, único país da América do Sul que mantém relações diplomáticas com Taiwan, vive um momento de crescente pressão do lobby chinês. A situação se agrava em meio à disputa geopolítica entre China, Taiwan e Estados Unidos, com Pequim buscando incorporar a ilha como parte de seu território.
O embaixador de Taiwan no Paraguai, Iván Yueh-Jung Lee, que iniciou seu terceiro mandato não consecutivo em Assunção, afirmou que a primeira estratégia chinesa é gerar interesse nos empresários. “Eles consideram a rentabilidade, ganhar dinheiro é o mais importante; por isso, os chineses usam a estratégia de dar benefícios comerciais”, declarou.
Lee alertou que mudar o vínculo histórico, mantido desde 1957, pode ser perigoso, pois a China, em sua visão, não age com transparência. “Não só no Paraguai, em Taiwan eles são a mesma coisa: oferecem benefícios a empresários taiwaneses, dizem que podem investir na China por mão de obra barata e taxas especiais. Mas a realidade é que é preciso cuidado ao negociar, pois as leis não são transparentes e a política pode mudar do dia para a noite”, completou.
O diplomata reconheceu que a maior expressão da influência chinesa no Paraguai está no Congresso, entre deputados e senadores. Embora o Partido Colorado projete sustentar a aliança com Taiwan até 2028, setores da oposição e até mesmo alguns colorados na dissidência e no oficialismo iniciaram conversas com Pequim.
O ex-embaixador taiwanês José Chih-Cheng Han, que serviu no Paraguai por quase seis anos, afirmou que o lobby chinês no país é muito forte, embora com um discurso “pobre”. Ele destacou que Pequim oferece um mercado de 1,4 bilhão de habitantes e promete investimentos de US$ 10 bilhões, mas as cifras são “exageradas” e nada concreto é negociado. “A China não tem interesse real no Paraguai; só quer absorver Taiwan”, disse Han.
Desde o início do governo de Santiago Peña, em 2023, a pressão do lobby chinês se intensificou entre 2024 e 2025, coincidindo com o contexto internacional, especialmente após a posse de Donald Trump em janeiro de 2025. Peña nunca colocou em dúvida a relação com Taiwan, mas prometeu, em 2022, abrir o mercado chinês para a carne paraguaia, o que ainda não ocorreu. Seu oponente nas eleições de 2023, o liberal Efraín Alegre, foi mais radical, classificando a relação com Taiwan como “insuficiente” e prometendo mudá-la se eleito.
Em dezembro de 2024, um diplomata chinês, Xu Wei, foi expulso do Paraguai por suposta intromissão em assuntos internos. Ele havia se reunido com referentes políticos no Congresso Nacional e afirmou que sua missão era convencer o governo a reconhecer o princípio de uma só China, que considerou “inegociável”.