A recente visita do presidente Santiago Peña a Taiwan reavivou as tensões diplomáticas entre Paraguai e China, em um cenário internacional marcado pela crescente rivalidade geopolítica entre Pequim, Taipé e os Estados Unidos.
Após o apoio expresso por Peña ao governo taiwanês durante sua viagem oficial, a China endureceu seu discurso em relação a Assunção, chegando a classificar dirigentes paraguaios como "peões de Taiwan", e reiterou a exigência de que o Paraguai rompa relações com a ilha e adote o princípio de "uma só China".
Para a especialista em política externa paraguaia Julieta Heduvan, a posição do Paraguai não é nova, mas o nível de exposição internacional do país mudou. Segundo ela, o aumento das tensões no Estreito de Taiwan fez com que o Paraguai ocupasse um lugar mais visível na disputa global.
"A posição do Paraguai de reconhecer Taiwan o coloca inevitavelmente no centro de uma disputa internacional, e isso não é novo. O que é novo é a visibilidade que o Paraguai tem atualmente por essa questão", afirmou em entrevista. Ela acrescentou que, "à medida que a situação no Estreito de Taiwan se torna mais tensa, a posição diferenciada do Paraguai se torna mais evidente e, consequentemente, as pressões externas também aumentam".
Heduvan lembrou que, por muitos anos, o Paraguai esteve praticamente fora do radar chinês, com pressões diretas mínimas, exceto por episódios pontuais como a "diplomacia das vacinas" durante a pandemia. No entanto, nos últimos dois anos, o tom de Pequim mudou consideravelmente.
"Hoje vemos mensagens muito mais diretas da China ao governo paraguaio sobre a questão do reconhecimento, além de vínculos mais fluidos com setores políticos e econômicos locais, buscando instalar com mais força o debate sobre a relação com Taiwan", explicou.
A analista considerou que esse endurecimento coincide com uma fase de maior competição hegemônica entre Estados Unidos e China, o que também altera o lugar estratégico do Paraguai no tabuleiro internacional. "Que a China tenha classificado dirigentes paraguaios de 'peões de Taiwan' é uma linguagem que não se usava antes e reflete o quanto a temperatura subiu", analisou.
No entanto, Heduvan destacou que o cenário não representa apenas riscos, mas também oportunidades de negociação. "O Paraguai tem hoje mais peso negociador do que tinha há cinco anos, precisamente porque sua posição importa mais. Isso se traduz em maior capacidade de exigir condições a Taiwan ou até mesmo à China, mas também em maior atenção de Washington", disse.
A especialista concluiu que o país enfrenta um delicado equilíbrio diplomático: enquanto aumenta sua relevância internacional, crescem as pressões externas e os custos políticos de manter uma postura diferenciada. "Pode ser vantajoso e desvantajoso ao mesmo tempo. São dois lados da mesma moeda: obter maiores vantagens diplomáticas vem com mais pressões e custos", finalizou.