O assassinato do empresário Mauricio Daniel Schuartzman Parnes, executado diante de sua residência em Assunção em 12 de setembro de 2021, expôs a sobreposição de duas investigações sobre uma mesma estrutura internacional de tráfico de cocaína e lavagem de dinheiro. Cinco meses depois, essa convergência ajudaria a viabilizar a Operação A Ultranza, deflagrada em 22 de fevereiro de 2022.
Schuartzman, que tinha 52 anos, chegou à casa no bairro Jara às 23h26, após uma partida de tênis. Enquanto estacionava sua BMW X6 branca, dois atiradores armados com pistola e fuzil abriram fogo. Um terceiro integrante aguardava em um carro. O ataque durou 29 segundos; antes da execução, um segurança da quadra e um amigo da vítima haviam sido feitos reféns para não interferirem.
Na época, o então ministro do Interior Arnaldo Giuzzio afirmou publicamente que o crime tinha relação com o narcotráfico. A declaração refletia informações que já circulavam em investigações policiais, embora ainda fossem tratadas como confidenciais.
A investigação foi inicialmente encaminhada à unidade de Crime Organizado, então integrada pelos promotores Marcelo Pecci, Alicia Sapriza, Lorenzo Lezcano e Federico Delfino, por decisão da então procuradora-geral do Estado, Sandra Quiñónez. Lezcano informou que já apurava Schuartzman na Operação Smart, conduzida com participação do Comando Tripartite, estrutura policial que coordena a cooperação entre Paraguai, Brasil e Argentina na Tríplice Fronteira.
Paralelamente, o promotor antidrogas Deny Yoon Pak e agentes da Secretaria Nacional Antidrogas (Senad), sob comando de Zully Rolón, investigavam a mesma rede na Operação A Ultranza. O trabalho reunia mensagens, escutas, monitoramento de cargas de cocaína destinadas à Europa, identificação de pistas e aeronaves e levantamento de bens atribuídos aos suspeitos.
As duas frentes apontavam para uma organização supostamente liderada pelo uruguaio Sebastián Marset, conhecido como “Omelet”, e pelo paraguaio Miguel Ángel Insfrán Galeano, o “Tío Rico”. Após reuniões entre as instituições, decidiu-se que a Senad e a unidade antidrogas assumiriam a condução, por estarem mais avançadas. A operação foi executada cinco meses depois.
A principal hipótese investigativa é que Schuartzman tenha sido morto por ordem de Marset. Mensagens da plataforma Sky ECC, interceptadas pela Europol e encaminhadas ao Paraguai, teriam indicado que o empresário participou da obtenção de um passaporte paraguaio falso usado pelo uruguaio. Marset foi preso nos Emirados Árabes Unidos após a descoberta do documento, e os investigadores suspeitam que o assassinato tenha sido uma retaliação.
Essa motivação continua sendo apresentada como uma teoria baseada nas evidências reunidas pelas autoridades, e não como uma conclusão judicial definitiva. O caso também ganhou dimensão histórica porque o promotor Marcelo Pecci, que integrou a equipe inicialmente designada, foi assassinado na Colômbia em maio de 2022, poucos meses após a deflagração de A Ultranza.
