Prisão de Erico Galeano expõe fim do blindagem político no Paraguai

A prisão preventiva do ex-senador colorado Erico Galeano, condenado a 13 anos por lavagem de dinheiro e associação criminosa no âmbito da operação A Ultranza Py, marca um ponto de inflexão simbólico no sistema político paraguaio, historicamente marcado pela impunidade seletiva e pela proteção de figuras influentes.

A decisão do Tribunal de Sentença Especializado em Crime Organizado de decretar a prisão preventiva do ex-senador Erico Galeano representa um abalo na cultura de impunidade que por décadas protegeu certas figuras políticas no Paraguai. Galeano, ex-integrante da Associação Nacional Republicana (ANR, Partido Colorado), foi condenado em março a 13 anos de prisão por lavagem de dinheiro e associação criminosa, no âmbito da operação A Ultranza Py, que investiga uma rede de narcotráfico com ramificações regionais.

O caso transcende a situação pessoal do ex-legislador. Durante quase dois anos, o oficialismo cartista utilizou manobras parlamentares para blindá-lo, incluindo a aprovação de um polêmico regime de foros que posteriormente foi declarado inconstitucional. O Senado também concedeu a Galeano uma licença "sine die" dias após a condenação, adiando sua expulsão. O presidente da Câmara Alta, Basilio Núñez (ANR, HC), afirmou que "a justiça agiu", mas evitou comentar o papel do cartismo na proteção do ex-senador. "Para os que dizem que o Poder Judiciário é controlado pelo cartismo, aí têm outro exemplo", declarou Núñez, em uma tentativa de distanciar o partido da decisão judicial.

A trajetória de Galeano ilustra a naturalização de vínculos entre política, negócios e crime organizado. Imputado em maio de 2023 por suposto envolvimento na venda de um imóvel de US$ 1 milhão a uma pessoa ligada à estrutura criminosa, ele conseguiu manter-se no Congresso até que o desgaste político e a pressão internacional tornaram insustentável sua permanência. A senadora Celeste Amarilla afirmou que "ainda existem vários Erico Galeano dentro do Congresso", ecoando uma percepção de que o sistema político ainda abriga figuras com suspeitas semelhantes.

O episódio levanta questões sobre a eficácia dos mecanismos de controle e a disposição das instituições em agir contra a corrupção. Embora a prisão não represente uma condenação definitiva, ela sinaliza que o blindagem político já não é tão impenetrável quanto antes. O custo reputacional e político de proteger figuras sob suspeita tornou-se alto demais, mesmo para setores historicamente acostumados a administrar escândalos sem consequências.