Ex-presidentes do IPS são imputados por desvio de 61 bilhões em obra não realizada

O Ministério Público do Paraguai imputou nove pessoas, incluindo dois ex-presidentes do IPS, por um suposto desvio de 61 bilhões de guaranis em uma obra de quirófanos nunca concluída, em meio a uma crise na instituição onde a Controladoria aponta prejuízos muito maiores e beneficiários exigem investigações amplas.

Ex-presidentes do IPS são imputados por desvio de 61 bilhões em obra não realizada

O Instituto de Previsão Social (IPS) do Paraguai está no centro de um escândalo de corrupção que envolve um prejuízo patrimonial de 61 bilhões de guaranis, relacionado a uma obra de instalação de quirófanos modulares que nunca foi concluída. O Ministério Público imputou nove pessoas, incluindo os ex-presidentes da instituição Vicente Bataglia e Jorge Brítez, pelo suposto crime de lesão de confiança.

A investigação aponta que, entre 2020 e 2025, foram realizados pagamentos e assinadas sucessivas adendas a um contrato com a empresa Neighpart S.A. para a instalação dos centros cirúrgicos no sétimo andar do Hospital Central do IPS. No entanto, um laudo técnico posterior indicou que a estrutura do edifício, com mais de 50 anos, não suportaria o peso dos equipamentos, impossibilitando a obra no local originalmente planejado. Apesar disso, o contrato foi mantido e modificado para transferir a obra para o subsolo, sem que os serviços fossem efetivamente entregues.

Nesta quinta-feira (06/08), o ex-presidente Jorge Brítez apresentou-se espontaneamente perante o juiz Rodrigo Estigarribia, especializado em Delitos Econômicos. O magistrado concedeu-lhe liberdade ambulatoria, rejeitando o pedido de prisão preventiva do Ministério Público. O juiz fundamentou a decisão na lei processual que proíbe a prisão preventiva de pessoas com mais de 70 anos e por não verificar risco concreto de fuga ou de obstrução da investigação. Uma fiança real de G. 1 bilhão foi imposta como medida cautelar.

O ex-presidente Vicente Bataglia, que segundo sua defesa está na Itália participando de um curso, também teria sido notificado e seu retorno ao país para se apresentar à Justiça é esperado para os próximos dias. Na quarta-feira, a ex-assessora jurídica do IPS, Rosa Concepción Colmán, também recebeu liberdade ambulatoria após pagar uma fiança de G. 500 milhões.

O advogado de Brítez, José Fernández Zacur, criticou a ação do fiscal Julio Ortiz, classificando a imputação como "um show" e questionando sua fundamentação. Já o defensor de Bataglia, Jorge Arturo Daniel, questionou a legalidade e a proporcionalidade dos pedidos de detenção, alegando que seus clientes têm arraigo no país.

Enquanto isso, a Controladoria-Geral da República (CGR) revelou que o suposto desvio de G. 61 bilhões é apenas a ponta do iceberg. De acordo com o diretor de Auditoria Forense, Leandro Villalba, desde 2019 foram apresentadas nove denúncias contra o IPS por irregularidades que, somadas, representam um prejuízo patrimonial potencial superior a USD 200 milhões, abrangendo áreas como gestão de medicamentos, obras públicas e contratações.

A crise é acompanhada com apreensão por beneficiários do IPS. Representantes de aposentados e segurados comemoraram as imputações, mas exigiram que as investigações não se limitem a estes casos e que avancem para punir todos os responsáveis, incluindo possíveis cúmplices no setor privado, para evitar que o caso termine em impunidade. O senador Colym Soroka ecoou esse sentimento, defendendo que a investigação penal também deve alcançar os empresários beneficiados pelas licitações irregulares.

O caso dos quirófanos modulares expõe uma crise de gestão crônica no IPS, agravada por um relatório interno que veio a público, mostrando que mais de 36 mil medicamentos, no valor de G. 1,8 bilhão, venceram nos depósitos da instituição entre 2023 e 2025, enquanto os segurados enfrentam escassez crônica de remédios.

Compartilhar WhatsApp Facebook LinkedIn

Fontes (40)

Atualizado: 7 de ago. de 2026, 00:10