O Instituto de Previdência Social (IPS), responsável pela seguridade social e saúde pública no Paraguai, enfrenta uma crise na conclusão do bloco cirúrgico do Hospital Central, em Assunção. Um laudo técnico de 2022, elaborado pela consultoria Gavilán & Asociados, já apontava solução para reforçar a estrutura dos sétimo e oitavo andares, onde seriam instalados 11 centros cirúrgicos modulares, ao custo de 642 milhões de guaranis. No entanto, a proposta foi ignorada pelas gestões dos ex-presidentes Vicente Bataglia e Jorge Brítez, que optaram por aditivos milionários ao contrato original.
O contrato inicial, assinado em 2020 com a empresa Neighpart S.A. durante a administração de Andrés Gubetich, previa a construção dos centros cirúrgicos por 53 bilhões de guaranis. Com quatro aditivos, o valor subiu para 61,186 bilhões, sem que a obra avançasse. A auditoria interna do IPS revelou que, mesmo após pagamentos antecipados de 15,9 bilhões de guaranis, a primeira entrega de equipamentos só ocorreu em agosto de 2023 — com três anos de atraso e fora dos prazos contratuais. Os insumos, abandonados no estacionamento do hospital, incluíam painéis solares, geradores e tanques de oxigênio, mas nenhum módulo cirúrgico.
Em 2024, a gestão de Jorge Brítez suspendeu a execução do contrato e propôs realocar os centros cirúrgicos para outro espaço no hospital, projeto aprovado pelo Ministério da Saúde Pública. Contudo, a obra voltou a travar, e a atual administração do IPS, liderada por Isaías Fretes, alegou novos problemas na nova área. Enquanto isso, o Ministério Público imputou Bataglia e Brítez por suposto prejuízo de 61,186 bilhões de guaranis ao erário. Até agora, a Neighpart recebeu 35,658 bilhões, mas entregou apenas parte dos equipamentos de climatização.
Para tentar destravar o impasse, o IPS lançou uma licitação de 1,288 bilhão de guaranis para reavaliar toda a infraestrutura do Hospital Central. O diretor de Manutenção, Juan José Sánchez, admitiu que os andares originalmente previstos para os centros cirúrgicos podem voltar a ser considerados aptos. A medida, porém, é vista como redundante, já que o laudo de 2022 já oferecia uma solução técnica por metade do valor.
O caso também expõe falhas na fiscalização. Imagens de câmeras de segurança mostraram que a Neighpart entregou os primeiros insumos sem autorização, deixando-os expostos ao tempo. A empresa não apresentou justificativas documentais para os atrasos, e a auditoria interna alertou para o risco de deterioração dos equipamentos. Apesar das irregularidades, o IPS continuou a firmar aditivos e liberar pagamentos milionários.
