O Jurado de Enjuiciamiento de Magistrados (JEM) é o órgão responsável pelo julgamento disciplinar de juízes e procuradores no Paraguai. A investigação sobre a rede de contatos do falecido deputado Eulalio Lalo Gomes, que envolve suposto tráfico de influências dentro do JEM, tem implicações institucionais significativas, pois atinge o próprio mecanismo de controle do Judiciário paraguaio.
A causa que investiga a rede de contatos do falecido deputado Eulalio Lalo Gomes segue em aberto, e o Ministério Público ainda tem diversos nomes sob investigação, apesar de até agora apenas quatro pessoas terem sido formalmente denunciadas — e apenas uma, o ex-deputado Orlando Arévalo, processada com pedido de julgamento oral.
Arévalo, que presidia o JEM, é acusado de ter recebido contraprestação de Lalo Gomes em troca de voto favorável no órgão. Segundo os promotores, ele solicitou ao deputado o endosso de três cheques no valor de G. 202 milhões como garantia para um crédito, em troca de favorecer a então procuradora Stella Mary Cano, que respondia a processo disciplinário no JEM. Apesar disso, Cano não foi incluída na acusação.
Também foram processadas as ex-juízas Carmen Silva e Ana Aguirre, acusadas de terem buscado a influência política de Lalo Gomes para obter cargos ou arquivamento de causas no JEM. Silva chegou a dizer ao deputado que não tinha problemas em "trabalhar a hora que seja".
A denúncia original do juiz Osmar Legal, porém, ia além: incluía a procuradora Katia Uemura, a ex-juíza Sadi Estela López Sanabria e a própria Stella Mary Cano como pessoas que teriam pedido favores ao deputado. Nas mensagens, López — hoje aposentada e lotada em Amambay — agradecia o apoio recebido no JEM e pedia que Lalo resolvesse seu caso, que terminou em absolvição. A Corte Suprema chegou a apontar que os chats revelavam um aparente intercâmbio de favores e que López havia atuado em diversas causas, entre elas a liberação do suposto chefe do narcotráfico Ederson Salinas, conhecido como Ryguasu, posteriormente assassinado a tiros.
No caso de Katia Uemura, as mensagens de 2023 mostram que ela recorreu a Lalo Gomes para que Arévalo atendesse sua demanda. O deputado deixou claro que estava "apertando" Arévalo, e este respondeu: "Salió perfecto! Fue complicado pero bien! Terminó". Em seguida, o JEM arquivou a causa contra Uemura.
Os promotores Francisco Cabrera e Luis Piñánez, que integram a equipe de investigação junto com María Verónica Valdez, confirmaram que "a causa segue aberta".
Na lista de possíveis investigados também figuram dois atuais ministros que, quando ainda eram procuradores, mantiveram vínculos com Lalo Gomes durante o período em que o empresário era investigado. Marco Alcaraz, hoje ministro de Inteligência, e Liliana Alcaraz, atual ministra da Secretaria de Prevenção à Lavagem de Dinheiro ou Bens (Seprelad), aparecem em conversas com o deputado e teriam recebido presentes dele. Liliana, quando era procuradora de Delitos Econômicos e Anticorrupção, teria recebido pagamentos em hotéis e apoio político para sua campanha à Associação de Procuradores. Marco, como procurador adjunto de Narcotráfico, recebeu vinhos, carne premium, camisa do Olimpia autografada e até convite para o casamento do filho de Gomes — tudo enquanto Lalo era investigado por vínculos com o crime organizado. O deputado ainda teria intermediado uma reunião de Marco com a procuradora antidrogas Elva Cáceres, que investigava uma causa envolvendo Cabeza Branca, sobre a qual Lalo afirmou que "não havia nada" — e de fato nunca foi imputado.
Os favores atribuídos à rede de Lalo Gomes também teriam beneficiado Anderson Ríos Villalba, processado por tráfico de pessoas, e Waldemar Pereira Rivas, conhecido como Cachorrão, acusado pelo assassinato do jornalista Leo Veras.
