O Serviço de Hemodinamia do Instituto de Previsão Social (IPS) opera atualmente com apenas 40% de sua capacidade produtiva por falta de salas exclusivas para procedimentos cardiovasculares. A limitação foi exposta pelo chefe da área, Elías Rolón, durante sessão do Conselho de Administração da entidade.
Embora um dos dois angiógrafos do IPS esteja plenamente operativo no centro cirúrgico 2, a necessidade de dividir o espaço com cirurgia vascular, neurologia, pediatria e clínica médica reduz drasticamente o número de atendimentos diários. A escala semanal alterna a prioridade entre especialidades: quando a neurologia inicia, um único procedimento neurológico pode consumir toda a manhã, empurrando a hemodinâmica para as 16h e estendendo o expediente até as 22h.
A consequência direta é a queda na produtividade de um serviço que atende pacientes com doenças cardiovasculares complexas, muitas vezes em caráter de urgência. A falta de um bloco cirúrgico de uso exclusivo obriga a reorganização constante da agenda conforme a disponibilidade das demais áreas cirúrgicas, gerando atrasos e limitando o número de intervenções.
Durante a sessão, o presidente do IPS, Isaías Fretes, questionou como é compensado o profissional que permanece disponível além do horário habitual. Rolón explicou que vigora a figura do profissional prevenido, que recebe remuneração fixa por dois procedimentos extras, embora a equipe chegue a realizar até dez a mais. "E os outros oito já é de graça? Que bárbaro", reagiu Fretes, surpreso com o esquema de compensação.
O serviço de hemodinâmica esteve recentemente no centro das atenções após a morte do segurado Braulio Vázquez, trabalhador da imprensa que faleceu enquanto aguardava um cateterismo. A licitação para compra de stents e equipamentos foi destravada e, segundo Rolón, os stents hoje são cobertos em 100%, restando 13% de insumos que o IPS pretende adquirir para encerrar a crise de abastecimento.
Para enfrentar a falta de salas, o instituto prepara edital para aquisição de mais dois angiógrafos, elevando para três os equipamentos disponíveis, e para construção de três salas com Unidade de Terapia Intensiva de curta permanência, com investimento previsto de G. 30 bilhões.
Enquanto a estrutura do IPS tenta se adequar, especialistas alertam para o agravamento do perfil epidemiológico cardiovascular no país. A diretora do Programa Nacional de Prevención Cardiovascular do Ministério da Saúde Pública, Graciela González, afirmou que infartos e hipertensão estão aparecendo cada vez mais cedo.
"Agora o infarto é muito mais frequente antes dos 40 anos. A hipertensão estamos vendo antes dos 30. Então, como que se está adiantando 10 anos todo esse processo ou mais inclusive. É muito chamativo isso", descreveu a médica. Entre os fatores que explicam o avanço em jovens estão o uso indiscriminado de energizantes, substâncias estimulantes, consumo excessivo de álcool e, mais recentemente, os vapeadores, especialmente entre adolescentes.
O uso de anabolizantes em academias, muitas vezes sem controle ou por indicação de amigos, também preocupa. Esses suplementos produzem efeito semelhante à testosterona, aceleram o ganho de massa muscular e elevam o risco de hipertensão arterial e arritmias, podendo determinar maior risco de infarto ou morte súbita. O excesso de telas, ao propiciar o sedentarismo entre crianças e adolescentes, completa o quadro de novos fatores de risco.
Dados estatísticos citados por González mostram que 7 em cada 10 paraguaios apresentam sobrepeso e obesidade. Na faixa etária a partir dos 60 anos, 70% dos idosos sofrem de hipertensão. No homem, o infarto agudo do miocárdio é a primeira causa de morte a partir dos 45 anos; antes dessa idade, lideram os acidentes. Na mulher, o infarto assume a primeira posição apenas aos 55 anos, mas entre homens tem aparecido com maior frequência antes dos 40.
Em 2023, as doenças cardiovasculares causaram 10.295 mortes no Paraguai, com infarto agudo do miocárdio e acidente cerebrovascular ocupando as duas primeiras posições entre as causas de óbito. A hipertensão apareceu como principal fator de risco, seguida de sobrepeso e obesidade. O Ministério da Saúde reforça que a detecção precoce permite identificar e intervir a tempo, encaminhando pacientes aos serviços da rede pública para tratamento adequado.
