Juros da dívida pública no Paraguai comprimem espaço fiscal para investimentos em saúde e infraestrutura

O crescimento dos juros da dívida pública no Paraguai, que saltaram de US$ 187,3 milhões em 2015 para US$ 1.044,8 milhões em 2025, comprime o espaço fiscal para investimentos em saúde, educação e infraestrutura, embora a dívida ainda esteja em 36,2% do PIB.

Juros da dívida pública no Paraguai comprimem espaço fiscal para investimentos em saúde e infraestrutura
Ilustração gerada por IA.

O crescimento dos juros da dívida pública no Paraguai está no centro de um debate sobre o espaço fiscal do país: embora o endeudamento ainda esteja em 36,2% do PIB, o aumento do serviço da dívida reduz a margem para investimentos em saúde, educação e infraestrutura. O alerta faz parte da série "Los 6 nudos económicos que Paraguay debe desatar para su desarrollo".

Para Humberto Colmán, economista-chefe da Desarrollo en Democracia e ex-membro do Diretório do Banco Central, a dívida ainda é sustentável, mas o pagamento de juros já representa cerca de 2% do PIB e comprime o espaço fiscal. Ele diferencia o destino dos recursos: dívida para infraestrutura produtiva pode gerar receita futura, enquanto o uso para gastos correntes — como ocorreu com atrasos no pagamento a fornecedores — resulta em déficit operacional da Administração Central.

Colmán destaca que o aumento dos gastos rígidos, como salários, transferências, aposentadorias e os próprios juros, limita ainda mais a capacidade de investimento. Embora a depreciação do dólar ajude a reduzir a carga da dívida em termos do PIB, o país segue exposto a flutuações cambiais, especialmente com a queda de receitas das entidades binacionais, que reduz a cobertura cambial do Fisco.

Martha Coronel, economista da consultora Mentu, avalia que o nível de dívida ainda não é um problema em si, mas adverte que o ciclo de endesdamento crescente é insustentável no longo prazo. "Quanto mais nos endividamos, mais crescem os juros e mais espaço fiscal se consome", afirma. Para ela, é necessário investir em mais estradas, escolas, hospitais e capital humano, aproveitando o bônus demográfico que ainda resta ao país.

Coronel defende uma reforma fiscal — e não apenas tributária — que melhore a qualidade do gasto público. "Precisamos de uma reforma fiscal, que saiba utilizar o que se arrecada, que se use inteligentemente e que isso se traduza em mais crescimento, mais produção e mais receitas que depois sejam reinvestidas. Esse é o ciclo virtuoso que deveríamos perseguir", conclui.

Os dados do Ministério de Economía y Finanzas mostram que o serviço da dívida pública cresceu de forma sustentada: os juros passaram de US$ 187,3 milhões em 2015 para US$ 1.044,8 milhões no ano passado, um aumento de 457,8%.

Raúl Luraghi, diretor da Caja de Valores del Paraguay (Cavapy), defende que o endeudamento público paraguaio segue em níveis manejáveis e abaixo de outras economias emergentes. No entanto, alerta que o principal desafio não é o volume da dívida, mas sua correta administração e execução. Para ele, a dívida "bem administrada e bem executada" pode ser positiva, permitindo financiar infraestrutura e projetos que impulsionem o crescimento e gerem recursos para o pagamento dos juros.

Governos anteriores, assim como o governo atual, trabalharam com o objetivo de elevar a dívida pública do Paraguai para cerca de 35% do PIB, já que essa proporção é considerada “saudável”.

O autor destas linhas, no entanto, entende que a dívida não deve ser razoavelmente comparada à produção econômica de um país, ou seja, ao PIB, mas sim à receita do Estado ou ao superávit público. Isso vale especialmente em um país como o Paraguai, onde um aumento do PIB não necessariamente se traduz em maior arrecadação estatal, já que muitos tipos de renda são isentos de impostos.

Fontes (1)

Atualizado: 28 de jun. de 2026, 09:47