Luis Szarán, de caminhão de erva-mate a maestro da OSCA por quase 50 anos

Luis Szarán, nascido em Encarnação em 1953 e que chegou a Assunção aos 12 anos num caminhão de erva-mate sem dinheiro para a passagem, é maestro da Orquestra Sinfônica da Cidade de Assunção (OSCA) desde 1978 e titular desde 1990, acumulando quase cinco décadas no posto, mais de 2.500 concertos realizados internacionalmente e cerca de sessenta obras compostas, além de ter publicado o Diccionario de la música en el Paraguay em 1999.

Nascido em Encarnação no dia 24 de setembro de 1953, o menor de oito filhos de Basilio Szarán e Luisa Boreska chegou a Assunção aos 12 anos num caminhão de erva-mate, sem dinheiro para a passagem, movido pela convicção de que a música era seu destino. Luis Szarán, hoje um dos nomes mais emblemáticos da música paraguaia, recorda que a infância em Yuty, no departamento de Caazapá, onde o pai tinha um arrozal, foi "longa e cheia de silêncios" que depois aprendeu a preencher com música.

O primeiro contato com o violão clássico aconteceu de forma clandestina. A mãe, que considerava a carreira musical uma loucura, não apoiava o sonho. Aos oito anos, Szarán já tocava escondido com vizinhos e, aos onze, lia partituras e compunha suas primeiras peças. O momento que acendeu a chama foi ouvir Sila Godoy na escola: "Como alguém podia fazer aquilo com uma caixa de madeira? Acho que foi aí que começou tudo."

Foi o maestro José Luis Miranda, então diretor da Orquesta Sinfônica Nacional, quem o ouviu tocar, convenceu a família e o trouxe para Assunção. Miranda o formou de mestre a discípulo — relação que Szarán guarda com gratidão permanente — e também foi responsável pela formação de Berta Rojas. Aos 17 anos, a estreia de sua primeira obra, o Opus 1, foi um fracasso. Os músicos se perderam, o público não entendeu nada e o jovei compositor se trancou no banheiro, entre lágrimas, fazendo uma promessa: estudar direção de orquestra para "tocar com respeito as obras dos outros". Esse foi o ponto decisivo da carreira.

Em 1975, uma bolsa do governo italiano levou Szarán ao Conservatório de Santa Cecilia, em Roma, onde estudou direção orquestal. Antes disso, havia se aperfeiçoado no Teatro Colón de Buenos Aires com Hans Swarowsky, referência mundial da época. Desde 1978, está à frente da Orquesta Sinfônica da Cidade de Assunção (OSCA), e desde 1990 como titular — são quase cinco décadas no posto, o que o torna o diretor de maior trajetória na história da orquestra. Ao longo desse período, realizou mais de 2.500 concertos em palcos da Alemanha, França, Itália, Espanha, Estados Unidos e América do Sul.

Com cerca de sessenta obras no catálogo, Szarán também publicou em 1999 o Diccionario de la música en el Paraguay, trabalho de anos que considera um de seus aportes mais duradoure. Entre os projetos que liderou estão Sonidos de mi tierra, H20 e a Orquesta de Cateura, sempre com a meta de aproximar a música dos rincones mais remotos do país. Apesar dos avanços, avalia que o Paraguai ainda precisa "dar o salto à excelência" e formar novos nomes como Mangoré e José Asunción Flores.

A vida pessoal, porém, pagou o preço da dedicação. Szarán se casou aos 19 anos e teve o primeiro filho, mas os sucessivos divórcios vieram justamente pelo desgaste de uma carreira que o levou a passar 15 anos dirigindo um conjunto em Veneza, entre idas e vindas constantes. Na Itália, aprendeu a chamada "dolce vita" e descobriu na culinária uma segunda paixão — hoje coleciona receitas de todo o mundo. "Simplesmente não imagino a vida sem música", resume. "Vim a Assunção num caminhão de erva-mate, mas com uma certeza que não saberia explicar. Mais de sessenta anos depois, o tempo mostrou que era verdade."

Fontes (1)

Atualizado: 15 de jun. de 2026, 06:15