O número de aplicativos digitais que oferecem crédito instantâneo, até mesmo para pessoas negativadas na lista da Informconf, cresce de forma acelerada no Paraguai. Com requisitos mínimos — apenas o número do documento de identidade e a maioridade —, esses serviços atraem consumidores que não conseguem fechar as contas no fim do mês, mas escondem custos financeiros exorbitantes.
As taxas de juros praticadas por essas plataformas frequentemente ultrapassam 60% ao ano, o dobro do limite legal para que um empréstimo seja considerado usurário. Além disso, as empresas cobram taxas "administrativas" que, em alguns casos, chegam a 30% do valor liberado. O Banco Central do Paraguai (BCP) afirma que a regulamentação vigente — Resolução nº 1, Ata nº 36, de 2 de setembro de 2025 — estabelece limites para essas comissões, mas a norma não diferencia a modalidade de concessão, seja ela presencial ou digital. O órgão ressalta que, diante de um caso concreto, pode realizar uma verificação para analisar se a operação está dentro dos parâmetros legais, desde que o consumidor apresente a liquidação detalhada do empréstimo.
O fenômeno, conhecido como "banca na sombra", também se manifesta em redes de varejo de eletrodomésticos. Essas lojas, na prática, funcionam como financeiras disfarçadas: o preço final de um produto financiado pode triplicar o valor à vista. Para não violar abertamente a Lei nº 2.339, que pune a usura, as empresas adotam três estratégias principais: inflação artificial do preço base do produto, cobrança de seguros e taxas obrigatórias não declaradas como juros, e a exigência de um pagaré em branco, que permite cobranças agressivas e ações judiciais em caso de atraso.
A Associação de Bancos do Paraguai (Asoban) não respondeu a pedidos de comentário sobre a concorrência desleal no mercado de crédito. Nos bastidores do setor financeiro, especula-se que várias dessas empresas digitais seriam capitalizadas por altos executivos do sistema financeiro formal, mas a informação não foi corroborada de forma independente.
O BCP publica mensalmente os limites máximos de juros considerados usurários para créditos ao consumidor. No entanto, a engenharia contratual das varejistas e dos aplicativos permite que esses limites sejam contornados, enquanto a profunda exclusão financeira do país — onde grande parte da população trabalha na informalidade — alimenta a demanda por esses serviços.