Uma auditoria interna do Instituto de Previsión Social (IPS), entidade paraguaia que administra o seguro social obrigatório e serviços de saúde, identificou uma diferença de G. 625.159.218.225 nos registros de medicamentos e insumos entre 2020 e 2024. O valor representa um descompasso entre o estoque informado pelos sistemas e a movimentação física, mas não comprova, por si só, desaparecimento de produtos ou um desfalque equivalente.
Medicamentos entregues a pacientes, transferidos entre unidades ou devolvidos continuaram aparecendo em determinados registros como disponíveis. A maior parte das diferenças acumuladas nesses cinco anos ocorreu em 2023, com cerca de G. 271.394 milhões. O levantamento também apontou aproximadamente G. 13.875 milhões em 2020, G. 133.511 milhões em 2021, G. 163.532 milhões em 2022 e G. 32.075 milhões em 2024. Somados, esses exercícios chegam a cerca de G. 614.390 milhões; outros G. 10.768 milhões foram associados a centros logísticos virtuais.
O problema envolve a comunicação entre o Sistema Integrado Hospitalario (SIH), usado para registrar entregas e outros movimentos, e o módulo logístico SAP MM, que controla estoques e valores. A auditoria já havia recomendado, em 2021, revisar os procedimentos e melhorar a integração entre as plataformas. O IPS implementou o SAP em 2017, com investimento aproximado de G. 184.452 milhões.
Na prática, uma baixa registrada em um sistema não era necessariamente refletida no outro. Isso criou um “estoque virtual” que pode ter afetado decisões de reposição e compras: uma unidade poderia parecer abastecida digitalmente enquanto o medicamento já havia sido entregue ou deslocado para outro estabelecimento.
Um dos casos mais relevantes foi identificado no Hospital Regional do IPS em Encarnación, onde apareceu uma sobrevalorização de medicamentos de G. 36.195.904.875 sem documentação suficiente para reconstruir todos os movimentos. Entre julho de 2023 e dezembro de 2025, problemas em impressoras, falta de papel ou fita e equipamentos em manutenção também dificultaram a emissão de comprovantes de entrega.
O gerente de Desenvolvimento e Tecnologia do IPS, Juan Carlos Frutos, atribuiu parte das inconsistências a uma ferramenta implantada durante a pandemia de Covid-19 e a procedimentos excepcionais que continuaram depois da emergência sanitária. Segundo ele, em algumas unidades os medicamentos eram registrados no sistema, mas não havia papeletas físicas ou assinaturas dos pacientes para conferência posterior. “Não consideramos um desfalque, mas um aspecto procedimental que devemos revisar em detalhe”, afirmou.
Frutos disse ainda que ajustes técnicos começaram em 2023 e que a diferença já foi corrigida nos sistemas operacionais. O presidente do IPS, Derlis León, determinou a coleta de informações das áreas de Tecnologia e Controle Interno. A instituição pretende confrontar os registros eletrônicos com a documentação disponível e encaminhar os resultados para apurar eventuais responsabilidades administrativas ou penais.
As autoridades também relacionaram as frequentes interrupções do sistema a falhas de refrigeração no centro de dados, cortes de fibra óptica e problemas de energia no interior do país. O IPS afirma manter protocolos em papel para contingências, mas a ausência de comprovantes em parte das entregas mostra que a reconstrução da rastreabilidade ainda depende de documentos incompletos.
