A recente desvalorização do dólar frente ao guarani está a apertar o espaço fiscal do governo paraguaio e a expor a fragilidade financeira do Estado, segundo o economista Arnold Benítez. Em entrevista, ele explicou que o Presupuesto General de la Nación (PGN) de 2026 foi construído com base em suposições de crescimento, inflação, taxa de câmbio e nível de arrecadação. “Se um desses pressupostos muda muito, como está acontecendo com o dólar, gera-se pressão sobre a margem fiscal”, afirmou.
Benítez destacou que a queda da moeda norte-americana afeta diretamente a receita do governo, especialmente o Imposto ao Valor Agregado (IVA) aduaneiro e tributos sobre importações. “Quando o dólar cai forte, o Estado arrecada menos em guaranis por operações vinculadas ao comércio exterior”, disse. Ele alertou que o problema não é apenas a cotação, mas a reação do governo: “Se compensa com atrasos a fornecedores, mais dívida flutuante ou pressão sobre o contribuinte formal, aí entramos numa zona delicada”.
O economista criticou os atrasos nos pagamentos a fornecedores do Estado, que geram uma “cadeia” de dificuldades para o setor privado. “Uma empresa que já entregou bens, serviços ou obras e não cobra a tempo começa a ter problemas de caixa, capital de giro, pagamento a bancos, fornecedores e empregados”, explicou. Além disso, isso encarece o próprio Estado: “Se os fornecedores sabem que vão cobrar tarde, incorporam esse risco nos preços. No final, o Estado paga mais caro e a economia torna-se menos eficiente”.
Para Benítez, o governo precisa de um cronograma claro de regularização, priorizar pagamentos atrasados e usar instrumentos como factoring e certificados negociáveis para ordenar a dívida com fornecedores. Ele também defendeu que cumprir a meta de déficit fiscal deixando contas por pagar “não é disciplina fiscal, é empurrar o problema para a frente”.
Sobre a competitividade dos exportadores, Benítez afirmou que ela não pode depender apenas do câmbio. “Tem que vir de melhor infraestrutura, logística, energia competitiva, menos burocracia, financiamento, segurança jurídica e abertura de mercados”, disse. Ele concluiu que o governo precisa “pagar melhor, gastar melhor e comunicar melhor”, enquanto o setor privado deve profissionalizar a gestão de riscos cambiais.