Uma casa histórica de Assunção, conhecida como "Casa do Horror" por ter sido palco de um quíntuplo homicídio em 2018, será leiloada nesta sexta-feira (27) após decisão judicial contestada pela família do antigo proprietário. O imóvel, avaliado em mais de 1,2 bilhão de guaranis, foi incluído em um processo de prestação de contas movido contra Néstor Andrés Macchi Amarilla, falecido em 2021, e será vendido por apenas 208 milhões de guaranis — valor baseado em uma avaliação fiscal, segundo a defesa das herdeiras.
A juíza Mafalda Cameron Luque, da Primeira Instância em Direito Civil e Comercial de Assunção, determinou o leilão público de três propriedades ligadas a Macchi Amarilla, incluindo a casa localizada no bairro La Encarnación e outro imóvel em Coronel Oviedo. A medida afeta 100% da herança da viúva, María Marlyn Villagra Cantero, e de sua filha, Marlyn Beatriz Macchi Villagra, que alegam não terem sido notificadas corretamente e terem seus direitos de reserva legal ignorados.
A advogada Noelia Núñez, que representa as herdeiras, denunciou a juíza por prevaricação e apresentou um pedido à Unidade de Delitos Econômicos e Anticorrupção do Ministério Público. Segundo Núñez, o processo judicial foi reativado de forma "clandestina" em agosto, apesar de uma suspensão formal decretada em setembro de 2025, que impedia a execução do patrimônio até a conclusão do inventário — ainda pendente na Câmara Civil da Suprema Corte de Justiça.
As irregularidades denunciadas incluem manipulação do sistema informático judicial Judisoft, com registros de notificações que não teriam sido entregues às herdeiras, mas cujos custos de envio aparecem no processo. Em 17 de agosto, um pedido de sentença de leilão foi inserido no sistema pelos advogados do demandante, mesmo após a decisão da juíza, em 4 de agosto. O documento foi posteriormente apagado ou ocultado, sem deixar rastros visíveis, segundo a defesa.
A "Casa do Horror" ganhou notoriedade após a descoberta, em outubro de 2018, dos corpos de cinco pessoas — incluindo uma mulher e duas crianças — assassinadas por Bruno Marabel, então marido de uma das vítimas. Marabel cumpre pena de 40 anos de prisão pelo crime, considerado um dos mais brutais da história recente do país.
A advogada anunciou que também levará o caso ao Júri de Enjuiciamento de Magistrados (JEM) e ao Conselho da Magistratura, buscando anular o leilão e investigar as supostas irregularidades. Até o momento, a juíza Mafalda Cameron Luque não se pronunciou publicamente sobre as acusações.
