Paraguai e Venezuela retomam diálogo: o que o encontro de Peña com Delcy Rodríguez realmente muda

Santiago Peña e Delcy Rodríguez abriram em Caracas um diálogo sobre a retomada das relações diplomáticas. O movimento ocorre após a ruptura de 2025 e combina interesses de segurança, economia e migração com um debate interno sobre a posição do Paraguai diante das instituições democráticas e da situação de direitos humanos na Venezuela.

Paraguai e Venezuela abriram um novo canal político depois de cerca de vinte meses sem relações diplomáticas normais. O presidente Santiago Peña reuniu-se em Caracas, em 19 de setembro de 2026, com a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez. Após o encontro, os chanceleres Rubén Ramírez Lezcano e Félix Plasencia assinaram um comunicado conjunto. Os dois governos apresentam a reunião como o início de uma “nova etapa” e como base para uma normalização gradual e plena das relações.

As relações ainda não foram plenamente restabelecidas

O encontro é politicamente significativo, mas não restabelece automaticamente a relação diplomática anterior. Peña afirmou depois da viagem que o diálogo deve conduzir a uma possível retomada das relações diplomáticas e consulares. O comunicado também menciona intercâmbio econômico, comércio e cooperação técnica, produtiva e social. No entanto, não foi anunciada uma data para a reabertura de embaixadas ou consulados.

Outras questões práticas também continuam sem solução. Desde 10 de janeiro de 2026, o Paraguai voltou a exigir visto de cidadãos venezuelanos. A decisão do Ministério das Relações Exteriores do Paraguai foi justificada por razões de segurança e pela necessidade de verificação prévia de documentos e antecedentes. O comunicado de Caracas não revoga essa regra. Quem pretende viajar entre os dois países deve, portanto, continuar verificando as exigências de entrada em vigor.

Por que as relações foram rompidas em 2025

A mudança atual de rumo só pode ser entendida à luz da eleição presidencial venezuelana de 2024. O Paraguai havia restabelecido as relações com a Venezuela em novembro de 2023. Em 6 de janeiro de 2025, o governo Peña reconheceu Edmundo González Urrutia como presidente eleito da Venezuela. O Ministério das Relações Exteriores do Paraguai explicou essa posição citando a ausência de atas eleitorais publicadas pelo Conselho Nacional Eleitoral venezuelano e as cópias das atas apresentadas pela oposição.

A Venezuela rompeu então as relações diplomáticas com o Paraguai. Assunção determinou em seguida a saída do embaixador venezuelano e do pessoal diplomático credenciado. O conflito, portanto, não ficou apenas no discurso: os canais diplomáticos regulares foram novamente interrompidos.

O que o Paraguai quer discutir em Caracas

A aproximação envolve interesses concretos além da dimensão política. Antes da viagem, o chanceler Ramírez Lezcano citou o processo institucional venezuelano, a economia e o combate ao crime organizado transnacional entre os temas da agenda. Segundo ele, também seriam discutidas questões migratórias e a disputa de longa data sobre obrigações da Petróleos Paraguayos (Petropar) com a estatal venezuelana Petróleos de Venezuela (PDVSA). La Tribuna relatou esses pontos a partir da entrevista coletiva do chanceler.

A visita é, portanto, mais do que um gesto simbólico. Um canal diplomático funcional pode ser relevante para casos consulares, migração, cooperação em segurança, pendências entre Estados e comércio. Abrir negociações, porém, não significa que já exista acordo sobre esses temas.

Por que o encontro é contestado no Paraguai

O oposicionista Partido Patria Querida (PPQ) reagiu de forma particularmente dura. Sua direção acusou Peña de legitimar a estrutura política que já exercia poder durante o governo de Nicolás Maduro e afirmou que as imagens de Caracas prejudicavam a reputação do Paraguai. Essa é uma avaliação política do PPQ, e não a posição do Estado paraguaio. A crítica, contudo, aponta para uma mudança real na política de Peña para a Venezuela: no início de 2025, seu governo apoiou explicitamente a reivindicação de Edmundo González Urrutia; agora negocia uma normalização com Rodríguez.

Políticos, jornalistas e comentaristas venezuelanos também criticaram a visita. As reações reproduzidas pela imprensa paraguaia variaram entre a acusação de recuo na política externa e referências à exigência de visto imposta pelo Paraguai aos venezuelanos. Essas manifestações mostram a sensibilidade política do encontro, mas não permitem concluir como a população venezuelana em geral avalia a visita.

A Venezuela de 2026 não é a Venezuela de janeiro de 2025

Entre a ruptura diplomática e a viagem de Peña, a situação política venezuelana mudou de forma profunda. Nicolás Maduro foi capturado por forças dos Estados Unidos em janeiro de 2026, e sua então vice-presidente, Delcy Rodríguez, assumiu posteriormente a presidência interina. Desde então, a Venezuela voltou a ampliar contatos com vários governos e empresas estrangeiras. A visita de Peña ocorre, portanto, em um ambiente internacional diferente daquele da confrontação do início de 2025.

Isso não elimina as questões sobre instituições democráticas e direitos humanos. Em 16 de setembro de 2026, a Missão Internacional Independente de Determinação dos Fatos sobre a Venezuela, do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, afirmou que houve melhorias limitadas e libertações de presos, mas que as estruturas estatais associadas à repressão e a graves violações de direitos humanos permaneciam em grande medida intactas. A missão também registrou novos casos de detenções arbitrárias e maus-tratos após a mudança política.

Quantos presos políticos existem?

A organização não governamental venezuelana Foro Penal contabilizava 344 pessoas como presos políticos até 14 de setembro de 2026, incluindo 200 civis e 144 militares. Segundo seus dados, 191 dessas pessoas estavam detidas sem condenação. A organização publica seu acompanhamento contínuo sobre a situação na Venezuela e informa que novos casos podem ser incorporados após verificação.

Esses números devem ser lidos juntamente com a fonte e a data de corte. Eles não constituem um censo prisional oficial do Estado venezuelano, e organizações de direitos humanos utilizam critérios e períodos de registro diferentes. As Nações Unidas também destacaram que a falta de dados oficiais transparentes dificulta estabelecer um total preciso. Para o debate político no Paraguai, portanto, o ponto central não é um único número, mas a continuidade de registros de detenções por motivos políticos e detenções arbitrárias.

O que realmente mudou — e o que não mudou

A principal mudança é o acesso político: Paraguai e Venezuela voltaram a conversar diretamente e criaram uma estrutura para novas negociações. Isso permite que questões consulares, econômicas e de segurança voltem a ser tratadas em nível governamental. É algo mais concreto do que um simples gesto diplomático.

Vários pontos importantes na prática para cidadãos e empresas, porém, ainda não mudaram. Não há cronograma para reabrir embaixadas, a exigência paraguaia de visto para venezuelanos não foi retirada, a questão Petropar-PDVSA não foi resolvida e o comunicado conjunto não apresenta uma nova avaliação paraguaia sobre a situação dos direitos humanos na Venezuela.

A próxima fase dependerá, portanto, dos passos formais que seguirem o diálogo: se as relações diplomáticas e consulares serão efetivamente restabelecidas, se as regras de entrada mudarão, se haverá avanços nas pendências entre os Estados e quais acordos econômicos ou de segurança resultarão do novo canal. Essas decisões mostrarão até onde a aproximação irá além do encontro em Caracas.

Compartilhar WhatsApp Facebook LinkedIn

Fontes (22)

Atualizado: