O presidente Santiago Peña completa três anos de governo neste 15 de agosto com um balanço marcado por avanços macroeconômicos e desafios fiscais persistentes. Entre os principais resultados estão a conquista do grau de investimento, que elevou a visibilidade internacional do Paraguai, e um crescimento econômico robusto, com o PIB projetado em US$ 63,8 bilhões em junho — 47% superior ao início do mandato. A entrada de investimentos estrangeiros diretos (IED) também saltou de uma média de US$ 300 milhões para cerca de US$ 1 bilhão no período.
No entanto, o cenário fiscal segue pressionado. O déficit, que chegou a 4,1% do PIB em 2023, foi reduzido para 2,5% em 2024 e 2% em 2025, mas o governo reconheceu recentemente o descumprimento da meta fiscal para 2026, quando a projeção é de um rombo de 3,2%. Para 2027, a estimativa é ainda mais alta: 3,9%. O ministro da Economia e Finanças, Oscar Lovera, justificou a flexibilização das metas pelas dívidas acumuladas com fornecedores, que somam cerca de US$ 1,27 bilhão (2,6% do PIB), e anunciou a contratação de nova dívida externa de US$ 600 milhões para cobrir obrigações pendentes.
A dívida pública total atingiu US$ 21,9 bilhões em junho, um aumento de 32,4% desde 2023, embora ainda represente 34,4% do PIB — abaixo do limite de 40% estabelecido pela Lei de Responsabilidade Fiscal. Especialistas alertam, porém, que o crescimento dos juros da dívida reduz o espaço para investimentos em áreas como saúde, educação e infraestrutura. A pressão tributária, de apenas 11,3% do PIB, também é apontada como um entrave, já que limita a capacidade do Estado de sustentar o endividamento crescente.
Na arrecadação, a criação da Direção Nacional de Ingressos Tributários (DNIT), que unificou a Aduana e a Subsecretaria de Tributação, impulsionou os resultados até meados de 2025. Contudo, a queda do dólar e a desaceleração econômica enfraqueceram os ingressos no segundo semestre de 2025, levando a DNIT a intensificar fiscalizações e a avaliar a eliminação de isenções tributárias. O governo descarta, porém, a criação de novos impostos.
Reformas estruturais, como a da Caja Fiscal, enfrentam resistências no Congresso, onde o déficit do sistema de aposentadorias atingiu G. 1,31 trilhão (US$ 218 milhões) no primeiro semestre de 2026. Analistas criticam ainda a lentidão na implementação de leis aprovadas, como a da Função Pública e a que cria a Superintendência de Jubilações e Pensões, cujos decretos regulamentadores ainda não foram publicados.
O economista Dionisio Borda, ex-ministro da Fazenda, avaliou que o governo "prometeu muito, mas cumpriu pouco", destacando que o lema "Vamos a estar melhor" beneficiou principalmente o setor político do presidente. Borda questionou a eficácia dos 68 viagens internacionais de Peña, que, segundo ele, ampliaram mais o conhecimento geográfico do mandatário do que a presença do Paraguai no exterior. A agenda política, com eleições municipais em 2026 e gerais em 2028, também deve limitar o espaço para novas medidas nos próximos dois anos.
Para o analista Amílcar Ferreira, o grau de investimento e o crescimento econômico contrastam com a fragilidade institucional, especialmente no sistema de justiça. Ele citou como retrocesso a nomeação de Hernán Rivas para o Jurado de Enjuiciamiento de Magistrados, entre 2020 e 2023, e a defesa pública feita por Peña na época, como um sinal de influência política sobre o Judiciário. Ferreira ressaltou que, apesar dos indicadores macroeconômicos positivos, a persistência de "vícios políticos" impede avanços estruturais.
