Presidente Peña provoca jornalistas e sugere sem provas que repórter recebe dinheiro do crime ao ser questionado sobre fortuna

O presidente Santiago Peña provocou jornalistas que questionaram seu crescimento patrimonial de G. 1.007 milhões para G. 23.024 milhões entre 2017 e 2023, sugerindo sem provas que uma repórter poderia estar recebendo dinheiro do crime organizado, ao mesmo tempo em que a oposição pediu perícia contábil sobre seus bens e especialistas apontaram inconsistências em suas declarações.

O presidente Santiago Peña voltou a se mostrar provocativo diante de jornalistas que questionaram seu crescimento patrimonial, após a Controladoria-Geral da República entregar uma auditoria patrimonial que excluiu o período entre 2017 e 2023 — justamente o intervalo em que sua fortuna saltou de cerca de G. 1.007 milhões para G. 23.024 milhões.

Durante a abertura da reunião de ministros do Interior e de Segurança do Mercosur e Estados Associados, realizada na sexta-feira, Peña afirmou que seu patrimônio "está totalmente transparentado" e que há rastreabilidade de contas desde 2014, ano de sua primeira declaração de bens. Questionado sobre a exclusão do período em que atuou no setor privado, após deixar o Ministério da Fazenda em junho de 2017, o presidente alegou que, na época, era "cidadão privado" e não poderia ser considerado pessoa politicamente exposta.

Diante da insistência dos repórteres, Peña adotou tom desafiador e sugeriu, sem apresentar qualquer evidência, que uma jornalista poderia estar recebendo dinheiro do crime organizado, citando como exemplo o líder do Clan Rotela, a quem disse "não muito contente com o Governo". O mandatário insinuou que o delinquente poderia estar pagando comunicadores para "atacar o presidente", sem apresentar qualquer prova para a suspeita.

Em outro momento, o presidente defendeu sua trajetória acadêmica e profissional como justificativa para o enriquecimento, mencionando sua formação em Economia, mestrado na Universidade de Columbia (Estados Unidos), bolsa do governo do Japão e passagens pelo Ministério da Fazenda, pelo Banco Central do Paraguai e pelo Fundo Monetário Internacional. "Dediquei-me ao serviço público honesto e honrado. Depois trabalhei no setor privado. Não há nenhum segredo", afirmou.

O advogado Ezequiel Santagada, especialista em acesso à informação pública, detectou inconsistências nas declarações de Peña. Segundo seus cálculos, somando o patrimônio declarado em 2017 (cerca de G. 2.000 milhões) aos rendimentos comprovados como diretor do Banco Basa (aproximadamente G. 10.702 milhões entre maio de 2018 e dezembro de 2021), o total chegaria a cerca de G. 13.000 milhões — quase G. 9.000 milhões a menos do que os G. 23.000 milhões declarados em 2023. Santagada também questionou o ritmo de pagamento de dívidas: entre dezembro de 2024 e maio de 2025, Peña quitou US$ 310.000 em empréstimos do ueno bank em poucos meses, apesar de sua renda anual estimada ser de cerca de US$ 320.000.

O advogado Felino Amarilla denunciou o que chamou de "conivência" entre a Controladoria-Geral e o presidente — uma alegação que não constitui constatação formal do órgão de controle. Segundo Amarilla, Peña apresentou uma nota aclaratoria ao órgão durante a auditoria, prática que, segundo ele, é irregular, pois não se trata de retificação formal de declaração. Amarilla também criticou o fato de a Controladoria não ter incluído em sua revisão o período em que Peña atuou no Banco Basa, ao passo que o ex-presidente da Petropar Eddie Jara foi investigado em circunstâncias semelhantes. O profissional ainda questionou uma omissão na declaração apresentada por Peña ao Tribunal Superior de Justiça Eleitoral em 2023, referente a um investimento de G. 250 milhões em Cementos Concepción (Cecon), empresa ligada ao ex-presidente Horacio Cartes.

Legisladores da oposição apresentaram ao Ministério Público um pedido de perícia contábil, financeira e tributária sobre o patrimônio de Peña, como ampliação de uma denúncia já existente desde outubro de 2025. O fiscal designado para o caso é Jorge Arce. Os deputados da oposição alegam que o patrimônio de Peña cresceu 2.400% entre 2017 e 2023, passando de G. 1.007 milhão para G. 23.024 milhões, embora esse percentual não tenha sido verificado de forma independente pelo relatório da Controladoria. A deputada Johanna Ortega, do País Solidario, classificou como "intimidação e censura" a insinuação do presidente de que uma jornalista poderia receber dinheiro do crime organizado. "Em democracia, as perguntas incômodas se respondem com transparência, não com ameaças", afirmou.

O deputado colorado dissidente Daniel Centurión somou-se às críticas e afirmou que Peña "trata de se defender como gato de barriga para cima". Para o legislador, o governo é "enamorado do dinheiro e do prazer" e o presidente "se dedicou a ganhar dinheiro rapidamente e a fazer negócios para ele e para seus amigos, afastando-se completamente dos compromissos eleitorais".

Já o advogado Ricardo Preda, representante legal de Peña, classificou como "absolutamente inadmissível" a denúncia dos legisladores, argumentando que o crescimento patrimonial ocorreu durante a atividade no setor privado e não durante o exercício de funções públicas. Segundo ele, a Controladoria-Geral concluiu que os rendimentos declarados guardam correspondência com o patrimônio nos períodos em que Peña foi funcionário público.

Fontes (8)

Atualizado: 9 de jun. de 2026, 19:01