Senado exige respuestas do BCP sobre Ueno Bank e concentração de recursos públicos

O Senado deu 15 dias para o BCP explicar a concentração de recursos públicos no Ueno Bank, divergências contábeis, operações com empresas vinculadas e o tratamento dado a um memorando interno, enquanto a Asoban cobra transparência e aplicação uniforme das regras.

O Banco Central do Paraguai (BCP) terá 15 dias para responder a um pedido do Senado sobre operações bancárias, com foco em Ueno Bank, concentração de recursos públicos, negócios com empresas vinculadas e decisões regulatórias adotadas após a fusão da instituição com o Visión Banco, em junho de 2024. A cobrança ocorre enquanto a Associação de Bancos do Paraguai (Asoban) pede explicações técnicas e tratamento uniforme para as entidades do sistema.

O documento da Asoban, apresentado ao presidente Santiago Peña e ao BCP, examina balanços publicados pelo banco, boletins estatísticos do próprio regulador e dados da Direção-Geral do Tesouro Público. Segundo a análise, o balanço da instituição cresceu G. 7,113 trilhões em 2025. Desse aumento, 34,4% vieram de depósitos do setor público, 43,9% de outras obrigações com o setor não financeiro e 9,6% de aportes patrimoniais.

Os depósitos públicos no banco passaram de G. 1,747 trilhão para G. 4,192 trilhões ao longo de 2025, uma alta de 140%, concentrada em até dez depositantes. A participação da instituição nos recursos estatais depositados no sistema bancário subiu de 5,7% em julho de 2024 para 18,6% em dezembro de 2025. Até julho de 2026, Estado e Instituto de Previsión Social (IPS), entidade paraguaia de seguridade social e saúde pública, mantinham cerca de G. 5,1 trilhões na instituição, equivalentes a aproximadamente US$ 862 milhões pelo câmbio daquele mês.

A associação também apontou uma divergência nos registros de março de 2026. O balanço trimestral do banco informava G. 3,164 trilhões em depósitos públicos, enquanto a Direção-Geral do Tesouro registrava G. 3,721 trilhões em guaranis, além de US$ 235 milhões. O documento ressalva que os dados disponíveis não permitem saber se a diferença decorre de reclassificação contábil, mudança no perímetro de consolidação ou outro fator.

Outro ponto citado foi a evolução da solvência. De acordo com a análise apresentada por Manuel Ferreira, economista e ex-ministro da Fazenda, o índice da instituição estava em 14,5% em junho, acima do mínimo regulatório mencionado por ele, de 12%, mas vinha caindo. Ferreira afirmou que, até onde verificou, não havia comprovação de violação explícita das normas; a preocupação da Asoban seria com deterioração gradual, exposição a empresas vinculadas, qualidade da liquidez e concentração de depósitos públicos.

O Senado também questionou o chamado “informe Rivarola”, memorando de 10 de julho de 2026 atribuído a Fernando Rivarola, então gerente de Supervisão do BCP e atualmente membro do conselho da Agência Financeira de Desenvolvimento (AFD). O conteúdo integral não é público. Os senadores querem saber se o documento foi recebido pela Superintendência de Bancos, como foi processado e se houve divergência entre a área técnica e a decisão final do órgão supervisor.

As preocupações foram discutidas em duas reuniões entre Asoban e Peña em setembro, uma delas com a presença do presidente do BCP, Carlos Carvallo, e de representantes de bancos, incluindo Ueno Bank. A entidade bancária, que começou como operação digital e se expandiu após a fusão de 2024, ganhou participação rapidamente no crédito ao consumo e nos depósitos públicos.

O economista Dionisio Borda alertou para os riscos de concentração e para operações com empresas relacionadas, mas disse confiar na atuação independente do BCP e do Ministério da Economia e Finanças. Representantes empresariais, como Laura Ramos, do Club de Ejecutivos, e Hugo Pastore, da Câmara Paraguaia de Exportadores e Comercializadores de Cereais e Oleaginosas, defenderam transparência, autonomia técnica e aplicação consistente das regras.

Ferreira advertiu que bancos operam majoritariamente com recursos de terceiros: em um exemplo de US$ 1 bilhão em ativos, cerca de US$ 120 milhões seriam capital próprio e US$ 880 milhões viriam do público. Uma retirada simultânea pode pressionar até uma instituição sem problemas prévios, sobretudo porque parte relevante dos recursos está aplicada em créditos ou outros ativos. Para ele, o BCP deve responder com dados concretos, sem usar o sigilo bancário para evitar explicações sobre informações agregadas de interesse público.

O senador Ever Villalba, do Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA), falou em suposto “favoritismo forte e grosseiro” em favor de Ueno Bank e pediu investigação. Essa acusação política não foi corroborada de forma independente nas informações disponíveis. Já o ex-intendente Miguel Prieto, líder do movimento oposicionista Yo Creo, afirmou que o Partido Colorado (ANR), especialmente a facção Honor Colorado ligada ao ex-presidente Horacio Cartes, estaria usando o BCP como instrumento de disputa interna. A declaração também permanece como alegação política, sem comprovação apresentada.

Manuel Ferreira e outros representantes do setor insistiram que a divulgação de suspeitas sem base técnica pode afetar a confiança dos depositantes. O debate, portanto, envolve dois riscos simultâneos: esclarecer eventuais problemas de concentração e supervisão e evitar que acusações não comprovadas provoquem saques ou transferências em massa em um sistema baseado na confiança.

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Fontes (9)

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